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terça-feira, 16 de outubro de 2012

O Mistério do Autor e da Obra

Não generalizo, veja bem, mas muitos estudiosos da literatura esquecem ou ignoram que o autor seja humano, declarando que tudo trata-se de ficção ou biografia. A modernista Clarice Lispector em entrevistas dizia: "Narrar é narrar-se".
Se por um lado o autor de fato faz ficção, por outro desnuda-se de alma e cotidiano, deixando transparecer uma ou outra ideia do que poderia ser a realidade do mesmo. Já a grande maioria dos autores não falam, ou melhor, preferem usar a velha conhecida: " qualquer semelhança é mera coincidência".
Os críticos, os estudiosos da área devem ter a liberdade de fazer suas pesquisas de qualquer obra ou autor e ai entra explorar suposições, coletar dados, hipóteses até absurdas, tudo é válido no campo científico onde a premissa é o erro e o acerto, o erro e o acerto, certo?, mas é imprescindível que reflitam sob este aspecto do autor ainda ser "humano" e de ser muitas vezes seu próprio personagem. Não aceitar a ideia de que o autor narre sua própria vida, vez ou outra seus costumes e etc., é comprometer os avanços de estudos literários e, [poderia dizer o mesmo no campo das artes, diga-se mestres da pintura, mas ai é um outro departamento]  possivelmente não olhar para o autor como um "todo", fazê-lo fragmentado ou ainda prendê-lo em departamentos, ou seja, o autor pode deixar de existir e restar a obra ou o contrário, matamos a obra e falamos somente do autor.
Sem dúvida o ser humano é dual, é como o sol e a lua, ora tem seu lado obscuro [dark side of the moonPink Floyd que o diga!], ora é luminoso e mostra-se em sua totalidade.
Lembremos a vida de Gustave Flaubert e sua Madame Bovary, a Ema, protagonista que causou escândalo e custou processo judicial ao autor porque atacava a moral burguesa da época, e logo para a defesa do autor/réu, Flaubert usou a morte de Ema como recurso em sua própria defesa. E nos seus discursos dizia a máxima: "Ema sou eu", reforçando assim a ideia do autor/personagem.
"Há muitos mistérios entre o céu e a terra do que diz nossa vã  filosofia", disse o sábio dramaturgo inglês William Shakespeare, inventor do humano. E é nessas palavras que se inspirou Clarice Lispector, peço desculpa ao leitor por usar tanto a Clarice, mas ela disse, desculpe ai também a rima, voltamos ao que disse Clarice, ops, o texto insiste! Vou direto, Lispector registrou: "Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Talvez por ser tão descomplicada Lispector era vista como inatingível e, aqueles olhos verdes marítimos assustavam ,é verdade, justamente em razão de muito silêncio e de sua incrível lucidez.
Diante do que foi exposto aqui creio que a possibilidade de ser autor, de ser humano retratado nas personagens é o que faz da escrita a grande arte. E fazer análises sobre a vida ou a obra de autores é mesclar a vida e a arte, pois é algo inconcebível de ser visto separadamente.



Sandra Puff

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O "stress" nosso de cada dia



O "stress" nosso de cada dia


     A Organização Mundial da Saúde afirma que o "stress" pode ser considerado como o mal deste século.
   Primeiramente, fala-se no "stress" como um inimigo invisível, na maioria das vezes, é no corpo que o mesmo mostra os estragos para depois o indivíduo perceber que mentalmente algo muito desastroso aconteceu.
   Em seguida, logo que detectado o problema, o conhecimento desse agente destrutível, as pessoas procuram ajuda médica, comportamental. Tendo várias alternativas para enfrentar a situação de estresse, a melhor ou a mais indicada seria a prevenção.
     Começa-se por alimentação saudável, educação, assistência médica, moradia. Mas, infelizmente a grande parte ou a maior fatia da população não tem acesso a tudo isso. Descarta-se, então, a utopia e passa-se para a realidade prática.
     Aponta-se para algumas formas criativas de acabar ou diminuir o "stress". Acordar cedo, aproveitar o dia, respirar pausadamente pode ser o começo.
    Tentar ser organizado talvez seja uma tarefa difícil, mas é ai que se aproveita bem o dia, uma vez que nosso organismo é sábio, logo nosso relógio biológico acerta os ponteiros.
     Ser alegre é importante, sorrir é um pouco cansativo diante de tantas adversidades, mas não é impossível.
    Praticar hábitos saudáveis, um "hobby", comunicar-se, gostar de si mesmo e dos que estão próximos, faz com que esqueçamos de problemas que não devem ser esquecidos e sim, resolvidos.
    E depois de um dia proveitoso, de satisfação, dormir bem é o que importa, chega a principal hora, a da regeneração celular.
    Enfim, o cotidiano existe, problemas irão surgir, e o mais importante é saber que em mente sadia há um corpo saudável. É permitir-se fazer pequenas coisas de cada vez para ver o todo realizado.




Sandra Puff




terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os 90 Anos da Semana de Arte Moderna


Capa do catálogo da Semana de Arte Moderna por Di Cavalcanti

Vinte anos após o acontecimento da Semana de Arte Moderna de 22, Mário de Andrade afirmou em uma conferência que, "O Modernismo, no Brasil, foi uma ruptura, foi um abandono de princípios e de técnicas consequentes, foi uma revolta contra o que era a Inteligência nacional"1
E foi, não foi?2
Essa ruptura que Andrade cita quebra de vez com a universalização da cultura importada. É certo que os campos das artes culturais e literárias, uma década antes, já se esboçavam a traços finos pelos pré-modernistas, porém ainda permanecia o academicismo e muito apego ao tradicional clássico, diga-se ao Parnasianismo com seus objetivismos puristas, seus mitos greco-romanos, o apreço aos versos regulares ao sabor da forma fixa e métricas decassílabas. O descrever da linguagem formal e rigorosa, ou seja, era o praticar da arte pela arte. Mas, querido leitor, não leia pelo modo de uma crítica isolada minha, são os fatos, ao Parnasianismo, nem ao digníssimo Olavo Bilac3, aliás, eu gosto muito do poema Ouvir Estrelas, “Ora ( direis) ouvir estrelas!Certo/ Perdestes o senso!” E eu vos direi, no entanto,/ Que, para ouvi-las, muita vez desperto/ E abro as janelas, pálido de espanto...”4 Ah!, eu adoro!, mas voltemos à Semana de Arte Moderna, que ocorreu entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922, ou seja, há 90 anos, foi o que se pode dizer do antes e depois, um divisor que não provocara mudanças imediatas, pois acontecimentos importantes já se iniciavam antes, mas sim o ápice dessas mudanças que, vista isoladamente, não deu-se muito crédito a ela, nem mesmo os jornais daquela época lhe dedicaram muitas colunas. A Semana era vista como um desejo de liberdade dos artistas e escritores.
E, ao decorrer da história a Semana ganha uma enorme notoriedade, uma vez que fez a junção dos artistas de São Paulo e Rio de Janeiro e estes desmistificaram a cultura brasileira, por assim dizer, abriram as cortinas de várias tendências e renovações que estavam acontecendo no cenário brasileiro, o qual fez outros artistas de cidades variadas que estavam à margem juntarem suas forças, ou seja, toda forma de arte. Foi nesse momento que a Semana de Arte Moderna marca para sempre as páginas da Literatura Brasileira, pois essa junção de vários artistas em diversas modalidades como autores, músicos, arquitetos, os escultores, os grupos de dança conseguem de forma sólida trocar experiências, técnicas e muitas ideias, o que contribuiu de vez para publicarem revistas voltadas à arte em geral, manifestos foram publicados por grande grupo de intelectuais da época, enfim, permitiu-se que a cultura brasileira fosse ampliada a diversos departamentos e, o melhor, nossa cultura ganhou tal força que não ficou apenas na década de 20 e sim permanecesse na atualidade, nada a dever com o que se fazia na Europa. E não só isso, foi o momento decisivo para que nossa cultura atravessasse décadas e permanecesse tão atual quanto ela é hoje.


Sandra Puff


REFERÊNCIAS
1Conferência comemorativa dos 20 anos da Semana de Arte Moderna, 1942.
2Uma referência ao Poema, “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, declamado por Ronald de Carvalho. O público gritava em uma só voz durante a declamação: “Foi, não foi”, o que faz um ritmo de imitação ao barulho do sapo tanoeiro.
3Olavo Bilac sempre fora criticado demasiadamente pelos Modernistas.
4Bilac, Olavo. Poesia. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1957. p.47-8.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sylvia Plath: humanamente mítica



Simples assim!, Complexa demais.  A poeta/escritora estadunidense Sylvia Plath completaria 80 anos não fosse sua trágica morte aos 30 anos. [Sylvia Plath, com todo meu respeito, foi a autora de minha dissertação de mestrado]
Relevantes são as obras que Sylvia deixou, conhecida como poeta, longa é a lista de sua escrita. A bibliografia de Sylvia Plath nos impressiona pelo fato de ter lançado dois livros em vida, The Collossus and Other Poems, (1960) e The Bell Jar, (1963) único romance, pouco antes do trágico fator a ser entendido. Os outros livros foram editados por Ted Hughes, poeta e marido de Sylvia.
A história trágica não era ficção, um romance lançado e a blondgirl, starlet agora, jazia em uma sala fria à espera das especulações que se formariam em torno da pessoa e da obra, mais da pessoa. Era a escrita plathiana a nos rondar. Uma espécie de escritos fantasmagóricos. Em torno das especulações, Sylvia, agora é morta, ganhou um Pulitzer póstumo, fato raro. Não só The Bell Jar, mas todos os escritos de Sylvia passavam, agora, aos mais vendidos, e mesmo que o romance encabeçasse a lista dos mais vendidos por um ano, as feministas tomaram as feridas da escritora transformando-a em um ícone martirizado ao ser retalhada pelos homens, em especial, Ted Hughes. Outra parte dos leitores do casal já declaravam que Ted havia tido sua vida destroçada por uma mulher desequilibrada e teria de suportar o violento ciúme de Sylvia, a americana superficial, que usava batom muito vermelho e o cabelo além de louro. Havia em Sylvia um ser sem nenhum senso de realidade, diziam as idólatras de Hughes, afinal ele também era escritor e havia conquistado seu lugar ao sol, sua fatia da legião de seus adoradores o defendiam e achavam que Sylvia poderia escrever muito bem mas não havia existência, tudo não passava de aparências.
Sylvia tornou-se famosa, assim como era sua ambição em vida, o montante de escritos nos dizem o quanto era determinada, numa disciplina diária  sobre vários temas. Tanto na poesia quanto na narrativa somam-se o esforço e qualidade na escrita, a força moral na recusa de muitos editores e as especulações que faziam sobre sua personalidade: louca, desequilibrada, ciumenta, extremista, histérica, autodestrutiva, isolada. O fato é que Sylvia tinha sua verve literária. O desejo de compartilhar suas experiências, angústias com o público somente os escritores capazes, profissionais, corajosos o fazem, pois sempre há as críticas, sejam as construtivas ou as que denigrem.


Assim que The Bell Jar debutou em janeiro de 1963, o uso do pseudônimo Victoria Lucas fez com que a crítica não associasse o romance à Sylvia Plath. O editor dos textos de Plath nos Estados Unidos não estava muito interessado na história, achava que era demasiado pessoal ou até um estudo de caso e as críticas não foram tão positivas quanto ela esperava. Sylvia achava que seu romance era mais um livro de boas vendas. Não foi bem assim, recebeu boas críticas, embora a maioria das críticas positivas viessem no post-mortem. Tarde demais!, mas assim como ousava  chamar-se, "A Lady Lazarus"  ressurgiu tão nova e tão boa em seus livros para a posteridade. 
Ah!, Sylvia era assim, tão simples!, mítica e humanamente complexa!

"Mesmo sob chamas ferozes pode-se plantar o Lótus Dourado" Bhagavad Gita [Epitáfio de SP]
Sylvia Plath - * 27/10/1932 - 11/02/1963



P.S. Quem quiser saber mais pode assistir ao filme: Sylvia, Paixão além das palavras.

Sandra Puff

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Revolutionary Road - Foi Apenas um Sonho


Ontem mesmo eu passava os olhos em uma revista e chamou-me atenção uma entrevista perguntando o que era ser “normal”, realmente eu não sei até onde vai a normalidade, o melhor seria perguntar onde começa a “anormalidade”, enquanto a ciência ferve e mexe um frasco de erlenmeyer surgem “novos” conceitos que já eram velhos, então o negócio começa a esquentar e muitos cientistas queimam os dedos e as revistas científicas começam a lançar tudo quanto é artigo científico. É o tal negócio, dos erros e acertos, erros e acertos e isso me fez divagar sobre um filme que vi faz um tempinho, mas não custa registrar e, também, porque no elenco está minha diva [sem que outra a ultrapasse] como protagonista.

Frascos de Erlenmeyer

Na década de 50, se o sujeito sofresse de “depressão” – chamaremos assim, era o mesmo que ser rotulado de louco. O mais intrigante é que a medicina psiquiatra ainda não diferenciava as várias doenças mentais, não havia uma nomenclatura para os diversos distúrbios da mente e o paciente em geral era “retirado de cena”, não como uma forma de tratamento e sim como um "jeito" de proteger a sociedade deste doente.1
Nessa mesma década houve o retorno da ideia do american way of life, o qual já havia sido explorado décadas antes. Infelizmente muitas coisas estavam fora do lugar na sociedade e, dessa forma, era transferido às pessoas que o jeito americano de viver era o mais importante, infalível, era isso que queriam mostrar, vender, mas não era bem assim. Havia um desconforto entre os indivíduos, uma desilusão que alguns não conseguiam superar.
Esse exemplo do modus vivendus americano foi mostrado no filme Revolutionary Road2, do diretor Sam Mendes, com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio como protagonistas. Se formos desdobrar o título do filme chegamos ao "xis" da questão. O casal mora na rua da “revolução”, bem sugestivo, mas que revolução é essa?


A narrativa começa com um encontro entre as personagens de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, ambos sonham, tem perspectivas para o futuro. Logo se casam, chegam os filhos, em uma época onde a pílula anticoncepcional ainda não existia. A personagem de Kate sonha em ir para Paris, pois só ela sabe que seus sonhos foram por água abaixo nessa relação hipocritamente estável e com um filho atrás do outro e, por esse motivo ela sente as dores da alma, [ainda não classificadas as doenças mentais]. O marido não percebe que sua esposa está à beira de um precipício e a saída, não entende ele, é fazer essa viagem, mudar de ares.

Quando chegam a um acordo, compram passagens, fazem planos, avisam os vizinhos e amigos sobre o novo destino, o que para os mesmos parece ser uma loucura, pois este é o modo de vida americano, trocar para quê? Kate encontra-se grávida por mais uma vez e o marido decide cancelar a viagem e se conformar com a posição em que estão, ou seja, entram na fôrma estabelecida por aquela sociedade, ou seja, se conformam, viram moldes de docinhos, uns iguais aos outros, [produtinhos em séries].
A vizinha bisbilhoteira tem um filho e vê em Kate a única pessoa que poderia conversar com o mesmo, um PhD em Matemática, que por algum motivo está com problemas mentais, sendo tratado com eletrochoques num hospício. O casal aceita a visita do matemático, que em certa altura do filme convida-os para uma caminhada. No passeio ele percebe que Kate parece não fazer parte daquele local, e discretamente conta como é seu tratamento na clínica. E então, num fio de esperança pra SI, que ela, ao achar que pode se curar de sua aflição, pergunta ao matemático como ele se sente, pois aparenta estar muito bem. E ele responde que está bem, mas que os números foram todos embora de sua cabeça por causa dos eletrochoques e sente-se muito distante de sua realidade pré-clínica. E surge um silêncio entre todos. Daí pra frente, segue o filme, há vários momentos, várias perspectivas e nuances.

E a revolução? Espero que esteja na ótica de cada um ao ver sutilezas em cores profundas!


Sandra Puff



REFERÊNCIAS
1Transtornos mentais que mais tarde foram nomeados como “doença maníaco-depressiva, depressão, transtornos ciclotímico de humor, transtorno unipolar ou bipolar e em último grau a esquizofrenia estavam todos ligados à ideia da loucura, os pacientes eram restritamente negligenciados pela sociedade naquele tempo, hoje, paradoxalmente, esses transtornos, de tão comuns e populares são banalizados em geral. UMPIERRE, Vera M, Psicopatologia. Disciplina Ministrada. Curso de Psicologia. Puff, Sandra. FURB. 2008.
2 REVOLUTIONARY ROAD. Direção de Sam Mendes. 2008. No Brasil: Foi Apenas um Sonho. 2009.

sábado, 16 de julho de 2011

Edgar Allan Poe - The Raven - O Filme

O que dizer sobre um gênio? Nada!, gênios não se importam com o que se diga sobre eles, são intolerantes com pessoas desinformadas ou as que possuem Q.I abaixo da média. Logo, diz-se que um gênio tem mau humor, tem personalidade difícil, parece alheio a tudo e a todos, ledo engano. Todo gênio é observador, aprecia tudo e saboreia os mínimos gestos das pessoas que estão alheias aos pensamentos do gênio. Nem o movimento das asas de qualquer inseto a  farfalhar lhe escapa aos olhos. E todos pensam que o gênio está alheio, não conversa, não faz piada, não ri. Ele o faz para si e não para mero expectadores. Gênio pensa enquanto as gentes contam piadas e falam bobagens, assuntos sem a menor importância para o mundo  ou para as pessoas em um metro quadrado. É, gênios não são fáceis, mas se garantem, não contam com a sorte e sim com talento. Eu chego a dizer que quem usa boa sorte ou é um bom jogador de roletas de cassino caseiro ou ainda não percebeu que existe gente realmente boa no que faz. Nunca deseje boa sorte a um gênio, ele para não decepcionar seu Q.I lhe desejará boa sorte também, mas o que realmente está dizendo é que você não tem talento e por esse motivo precisará de muita sorte mesmo. Mas que rebeldia nessa crônica, sô! É para testar como deveriam ficar as pessoas indignadas diante de um Edgar Allan Poe, uma hipótese apenas. Conhecido por ser um gênio e por sua rebeldia.
Edgar Allan Poe teve uma vida conturbada, esse estadunidense teve problemas na infância com seus pais de sangue, foi adotado por um casal que lhe deu o nome e todas as condições favoráveis a uma vida melhor, frequentou faculdade, exército e se rebelou contra essas instituições. Poe era rebelde demais para se moldar ao sistema, era autodestrutivo e melancólico, talvez pelo modismo da época gótico demais. Bebia como bom bebedor, vamos ser gentil aqui com meu ídolo, tinha uma personalidade difícil de aturar, mas ainda assim era gênio e não percebeu que em sua Boston ele poderia retornar velhinho.
Mas, o que dizer quando o gênio cria os melhores contos? Quando inventa o gênero terror e o detetivesco?, ou o conto policial, de mistério ou investigativo. Em uma narrativa de Poe tudo soa à atmosfera brumária, de matizes gris, é o próprio mistério que vaga na narrativa, assim como fosse um de seus personagens a nos dizer as pistas.
Para ler Poe, é preciso, nos dois sentidos, tudo é precisão, tudo tem conexão, pistas deixadas, números, raciocínio lógico e é preciso, é necessário.
Poe, sobrenome da família legítima e Allan, dos adotivos, deram o nome de nosso escritor, poeta, crítico literário e editor, Edgar Allan Poe, estadunidense que bebeu em fontes inglesas publicou seu primeiro livro, pasme, de poemas, publicou mais um livro, tornou-se editor e depois de um longo hiato publicou The Narrative of Arthur Gordon Pym, em seguida, publica a obra fantástica intitulada, Tales of the Grotesque and Arabesque, que foi traduzida por Charles Baudelaire, outro gênio francês que se impressionava com Poe. Para o português o livro passou a intitular-se Histórias Extraordinárias, lembro-me bem que  aos 9 anos eu já havia lido esse livro trazido da biblioteca de minha escola, fiquei muito impressionada com todos os contos e, especialmente, com o autor. Eu falava alto as sílabas: E - d - gar - A - llan - Poe, comendo rapidamente o "e" da última sílada. [rsrsrs]
Singular é, "Manuscrito Encontrado Numa Garrafa", "Berenice", " O Gato Preto", " William Wilson", " Os Crimes da Rua Morgue", " A Carta Roubada", " Nunca Aposte Sua Cabeça Com o Diabo", " O Poço e o Pêndulo", " O Escaravelho de Ouro" e " O Retrato Oval". Divirta-se sem esquecer que Poe deu vida em muitos contos ao detetive Dupin, bem antes da criação do detetive Sherlock Holmes, e preste atenção que no gênero terror, noir gótico de Poe há nas entrelinhas os abismos de temas considerados tabus ou até ficção científica para a época, vejamos: os cenários de castelos assombrados, igrejas, ruínas, a psicologia do medo, a loucura, deformação física, espectros, reflexos, maldições, profecias. Mas, o que instiga o leitor é a reanimação dos mortos ou a decomposição destes e o horror da tapocrifação, ou seja,  o enterro por engano, acidental de alguém vivo!, e sobre frenologia e metempsicose também! Sinistro.


Passemos dos contos ao poema, The Raven, ou O Corvo, de Edgar Allan Poe, está previsto para 2012 aqui, o ator John Cusack, interpretará o próprio Poe, as gravações já começaram em clima de fog, neblina, nas locações da Sérvia e Budapeste. O título do filme é homônimo ao poema famoso e multitraduzido The Raven, que além de falar sobre o poema, dirá sobre os últimos dias de Poe, morto aos 40 anos, as causas, são várias e não há uma oficial. O fato é que nos últimos momentos de vida em que o escritor já se encontrava em estado de delirium tremens e, popularmente conhecido como DT, causado pelo álcool, deu seu último suspiro dizendo que Eddie estava morto.
John Cusack faz parte da nova geração de bons atores com muitos filmes no currículo, e The Raven está sendo dirigido por James McTeigue [V de Vingança], ótimo. É aguardar para ver. Na foto Cusack e o Corvo.
Como eu havia dito no início, o que dizer sobre um gênio?, eu diria tudo, quase tudo, alguma coisa, ou apenas algo, pois ainda é dizer, somente para não irritar um gênio.


Sandra Puff

sábado, 25 de junho de 2011

The Bell Jar - A Redoma de Vidro

Abro esta crônica com a capa do livro A Redoma de Vidro, esta é especial para mim, pois trabalhei com esta edição e, por gosto meu, acho a capa mais linda de tantas que existem espalhadas pelo mundo, as quais foram traduzidas em diversas línguas. Esta é de tradução de Beatriz Horta. E a cada novo parágrafo ilustrei com capas de The Bell Jar, de Sylvia Plath.

The Bell Jar ou como uma das traduções A Redoma de Vidro, o próprio título do livro, essa redoma, é o objeto que protege, que mantém seu protegido sob a curiosidade alheia e o exclui. A autora metaforiza essa redoma como uma espécie de aprisionamento do sujeito, um descontentamento em relação ao próprio “eu” da personagem.
Quando se fala de The Bell Jar , a crítica especializada, salvo!,sem generalizar, o rotula como um romance autobiográfico, confessional devido a muitas passagens coincidentes entre o que a autora viveu e o que está na narrativa, diga-se, as tentativas de suicídio, a brilhante aluna que recebe bolsas, a editora de uma revista de Nova Iorque, o desgaste mental, as clínicas psiquiátricas entre outros acontecimentos que Sylvia Plath vivenciou e que transferiu para sua protagonista Esther Greenwood no romance.
O fato é que Sylvia o cunhou como um romance de ficção. E acredito que a palavra do autor deve ser levada em consideração. O mais importante é que Sylvia abordou temáticas diferenciadas para a época, por essa razão o livro se torna tão importante. O grande legado do romance de Sylvia foi anunciar alguns temas tabus que faziam, principalmente, jovens e mulheres se sentirem mais abertos aos assuntos inseridos na trama para se desdobrar na realidade desses leitores.
Sylvia, em The Bell Jar, explorou muito bem os ritos de passagem, a formação da personalidade do indivíduo, como também, uma vez formada, essa personalidade se deteriorava mentalmente, ou se dividia em outras personalidades, daí a dupla personalidade, um desvio, algum tipo de transtorno mental. Sylvia também contesta a univisão feminina da década de 50, onde a ascendência do feminino acontecia sob a forma de cursos para moças e iniciação ao casamento e posteriormente, a ser a dona de casa perfeita e mãe como consequência. O romance rejeita esse modelo de feminilidade e a tradição casamento/família. Se a sociedade havia criado seus costumes, o romance os descontrói. As expectativas dessa mesma sociedade romantizavam e glamourizavam os relacionamentos, homens e mulheres deveriam experimentar o romantismo, o que Sylvia mostra totalmente ao contrário na narrativa, sua personagem só encontrou hipocrisia, a brutalidade dos homens ou as desconfianças dos mesmos para com as mulheres, o que gerava todo um desconforto físico e crescente ao desgaste mental.
É desta forma que Sylvia faz soar em sua narrativa a campainha emergencial para a problemática feminina, ou seja, a mulher está presa em departamentos, ou é aluna brilhante, ou a esposa dedicada, a mãe perfeita ou a mulher submissa, sob sua ótica a mulher está sempre entre a polaridade de virgem ou prostituta, nunca a mulher em sua plena satisfação, seja como indivíduo ou em relação à sua sexualidade. O vazio de expectativas e o grito da convencionalidade da mulher americana caem por terra no romance. Sylvia prefere a pluralidade feminina, as várias identidades em uma só mulher.
O que salta do romance é a observação meticulosa que a autora faz sobre as instituições médicas ou psiquiatras, seria a eterna crítica, a narrativa informa os ambientes hostis, os médicos soberbos que são incapazes de saber ouvir a protagonista, que se submete a vários tratamentos insatisfatórios e dolorosos, a falta de sensibilidade dos médicos homens com pacientes mulheres, até mesmo o que Esther não acreditava existir, mulheres psiquiatras. Sylvia chama a atenção no romance sobre as terapias duvidosas, desumanizadas e, sobretudo, para a terapia de eletrochoque, que por um lado fazia com que sua Esther se esquecesse de coisas ruins ou que não usasse o corpo para automutilação, mas que por outro lado esvaziava sua mente e colocava sua inteligência à margem daqueles que não fazem mais parte da sociedade “sadia”.
Sylvia enriquece a narrativa dentro de seu ponto de vista como mulher, nem tudo é cinza ou sombrio, há também suas cores solares, a ironia, a graça, as sutilezas e humor ácido também pelas circunstâncias da época em que escreveu o romance. Foram vários olhares, centralizados e periféricos. Uns mais voltados para vários personagens, mas claro que o olhar centralizador é para Esther que transita na corda bamba, na ponte pêncil, no trampolim que, vez ou outra, a lança para dentro e fora dessa redoma!


Sandra Puff

terça-feira, 21 de junho de 2011

Os Gatos e a Literatura


Vamos falar de Gatos?
Charles Baudelaire ao fazer um poema chamado Cats demonstra afeição ao gato, animal místico em seu olhar, assim o cita. O gato é por excelência introspectivo, astuto, dinâmico, silencioso e também uma companhia. Os felinos, em geral, são adorados assim como os cães. São inúmeras raças, coloração, pelagem e histórias, superstições ou crendices a respeito do gato, em particular, ao gato preto.
A França é famosa pelos seus gatos pretos, conhecidos como “Chat Noir”, a figura de um gato preto, inspirados por Edgar Allan Poe e Baudelaire, foi a inspiração na Art Decó, o qual faz parte da cultura francesa e o nome de um cabaré famoso, chamado Chat Noir, o artista Théophile-Alexandre Steinlen estilizou em um pôster publicitário o gato negro que ainda hoje é comercializado em postais, quadros e outras lembranças de Paris.


Porém, nem sempre foi assim. A França adquiriu um hábito sinistro no século XVI, na festa de São João era costume reunir uma ou duas dúzias de gatos vivos, colocá-los em um saco numa forca e queimá-los vivos.
O misticismo em torno do gato preto já decorre do tempo dos egípcios. Eram adorados e mumificados devido a sua grande importância nesta civilização. Na mitologia egípcia o gato assume a forma de uma deusa no nascimento de Ísis e Osíris, Geb e Nut, entidades representativas da Terra e Céu, pretendiam se unir, e esse acontecimento contou com a inspiração de uma deusa felina.


Os gregos não lhe deram importância. Na Pérsia acreditava-se que ao maltratar um gato preto, o homem estaria maltratando a sim mesmo. O gato preto está relacionado a várias superstições e crenças, e associados a diferentes tipos de sortilégios.
Foi na Idade Média que o gato preto é perseguido por acreditarem que eram feiticeiras, bruxas transformadas no animal, nesse período também relacionaram que, se o gato fosse preto, o mesmo trazia azar, era diabólico e tinham relações com seres do mau.


O gato tem hábitos noturnos, vagam e habitam uma esfera mística na noite, seus olhos misteriosos e atentos sinalizam uma frieza, fitam intensivamente e furtivos o que lhes interessa. São auto-suficientes, na maioria das vezes ignoram os donos, estes o procuram para afagos e não o contrário como os cães.
Podemos dizer que o gato é um narcisista, está sempre se lambendo, limpando seus pelos, passam uma imagem elegante e longilíneos e parecem que o sabem que são belos, sutis e sofisticados. Considerados ambíguos, demonstram pensamentos secretos, sinistros e estão sempre de guarda ou à espreita. É um ser atemporal, viajante no tempo.


Foi com Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe que readquiriram o prestígio dos tempos egípcios. Seus movimentos insinuantes e o brilho de seus olhos penetrantes na noite fazem dele uma personificação do mal com poderes sobrenaturais. Os gatos pretos, ou claros em minoria, estão associados a superstições, crenças populares, a bons ou maus presságios, à sorte, a pessoas doentes ou moribundos, à vida após a morte, toda espécie de bruxaria, tumbas e uma lista variada dentro de cada cultura.
O gato é o animal dos sentidos apuradíssimos e sempre estará nessa polaridade entre o bem ou o mal.
Por isso, vamos aqui, dar créditos aos gatos, tendo eles a personalidade que tiverem, ou tendo essa mística ou não envolto a eles e brindá-los com alguns gatos importantes da Literatura. Começamos com o gato de Alice e segue a lista.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Mistério do Autor e da Obra

Não generalizo, veja bem, mas muitos estudiosos da literatura esquecem ou ignoram que o autor seja humano, declarando que tudo trata-se de ficção ou biografia. A modernista Clarice Lispector em entrevistas dizia: "Narrar é narrar-se".
Se por um lado o autor de fato faz ficção, por outro desnuda-se de alma e cotidiano, deixando transparecer uma ou outra ideia do que poderia ser a realidade do mesmo. Já a grande maioria dos autores não falam, ou melhor, preferem usar a velha conhecida: " qualquer semelhança é mera coincidência".
Os críticos, os estudiosos da área devem ter a liberdade de fazer suas pesquisas de qualquer obra ou autor e ai entra explorar suposições, coletar dados, hipóteses até absurdas, tudo é válido no campo científico onde a premissa é o erro e o acerto, o erro e o acerto, certo?, mas é imprescindível que reflitam sob este aspecto do autor ainda ser "humano" e de ser muitas vezes seu próprio personagem. Não aceitar a ideia de que o autor narre sua própria vida, vez ou outra seus costumes e etc., é comprometer os avanços de estudos literários e, [poderia dizer o mesmo no campo das artes, diga-se mestres da pintura, mas ai é um outro departamento]  possivelmente não olhar para o autor como um "todo", fazê-lo fragmentado ou ainda prendê-lo em departamentos, ou seja, o autor pode deixar de existir e restar a obra ou o contrário, matamos a obra e falamos somente do autor.
Sem dúvida o ser humano é dual, é como o sol e a lua, ora tem seu lado obscuro [dark side of the moon, Pink Floyd que o diga!], ora é luminoso e mostra-se em sua totalidade.
Lembremos a vida de Gustave Flaubert e sua Madame Bovary, a Ema, protagonista que causou escândalo e custou processo judicial ao autor porque atacava a moral burguesa da época, e logo para a defesa do autor/réu, Flaubert usou a morte de Ema como recurso em sua própria defesa. E nos seus discursos dizia a máxima: "Ema sou eu", reforçando assim a ideia do autor/personagem.
"Há muitos mistérios entre o céu e a terra do que diz nossa vã  filosofia", disse o sábio dramaturgo inglês William Shakespeare, inventor do humano. E é nessas palavras que se inspirou Clarice Lispector, peço desculpa ao leitor por usar tanto a Clarice, mas ela disse, desculpe ai também a rima, voltamos ao que disse Clarice, ops, o texto insiste! Vou direto, Lispector registrou: "Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Talvez por ser tão descomplicada Lispector era vista como inatingível e, aqueles olhos verdes marítimos assustavam ,é verdade, justamente em razão de muito silêncio e de sua incrível lucidez.
Diante do que foi exposto aqui creio que a possibilidade de ser autor, de ser humano retratado nas personagens é o que faz da escrita a grande arte. E fazer análises sobre a vida ou a obra de autores é mesclar a vida e a arte, pois é algo inconcebível de ser visto separadamente.