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| Foto: Meu Acervo |
Ao ver no Blog Sete Ramos de Oliveira 3 Posts sobre métrica, verso e estrofação, resolvi contribuir com uma análise do Poema de Cruz e Sousa usando também os elementos da Versificação, ou seja, verso, metro, ritmo, encadeamento, rima, estrofe e a forma fixa. Olhar para um Poema e sentir a Poesia vai muito além de um sentimento. Há muitos métodos intrínsecos que os Poetas usavam e/ou usam para construir belos versos e formar um Todo chamado Poema. Vejamos Cruz e Sousa:
Música Misteriosa
Tem / da / de Es / tre / las/ ní / veas, / re / ful / gen / tes,(A)
Que a / bris / a / do / ce / luz / de a / lam / pa / dá / rios, (B)
As / har / mo / ni / as / dos / Es / tra / di / vá / rios (B)
Er / ram / da / Lu / a / nos / cla/ rões / dor / men / tes (A)
Pe / los / ra / ios/ flu / í / di / cos, / di / luen / tes (A)
Dos / As / tros, / pe / los / trê / mu / los / ve / lá / rios, (B)
Can / tam / So / nhos / de / mís / ti / cos / tem / plá / rios,(B)
De / er / mi / tões e / de as / ce / tas / re / ve / ren / tes... (A)
Cân / ti / cos / va / gos , / in / fi / ni / tos, / aé / reos (C)
Flu / ir / pa / re / cem / dos / A / zuis / e / té/ reos, (C)
Den / tre os / ne / voei / ros / do / lu / ar / flu / in / do...(D)
E / vai, / de Es / tre / la a Es / tre / la, à / luz / da / Lu / a,(E)
Na / lác / tea / cla/ ri / da / de / que / flu / tu / a, (E)
A / sur / di / na / das / lá / gri / mas / su / bin / do... (D)
O ano de 1893 marcou o início do Simbolismo no Brasil, e o que evidenciou este início foi a publicação de dois livros, Missal (prosa) e Broquéis (verso), sendo Cruz e Sousa o autor de ambos.
É do livro Broquéis o poema “Música Misteriosa”, escolhido para esta análise.
Cruz e Sousa marcou o Simbolismo pelo seu subjetivismo, “sugerindo” nos poemas toda a sua desilusão com a vida. O pessimismo transparece a dor existencial.
Com uma linguagem vaga e fluida, o poeta remete o leitor ao místico e à religiosidade, e retoma elementos de uma tradição romântica. Porém é comum o interesse de Cruz e Sousa por áreas profundas da mente, como o inconsciente e consciente. A presença do mistério, do noturno e da morte são constantes.
O poema Música Misteriosa é um soneto, ou seja, quatorze versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos.
Os versos são decassílabos, dez sílabas poéticas, ora são heroicos, acentuados na sexta e décima sílabas, exemplos na primeira estrofe o (v.1), na segunda estrofe, os versos (12, 13 e 14). Ora são sáficos, acentuados na quarta, oitava e décima sílabas, são exemplos na primeira estrofe os versos (2, 3 e 4 ), na segunda estrofe ( v. 8) e na terceira estrofe, ( v.10 e v.11 ).
As rimas finais, externas, em cada estrofe são: (ABBA), (ABBA), (CCD) e (EED). Sendo respectivamente interpoladas (ABBA), novamente interpoladas (ABBA), emparelhadas (CC/EE) e cruzadas (DxD ).
Os versos são graves, uma vez que são acentuados nas palavras paroxítonas. Apresenta sequência de rimas ricas, ou seja, classes gramaticais diferentes. Como exemplo nas terminações dos versos (2 e 3 ), “alampadários / Estradivários”. Nos versos (6 e 7 ), “velários / templários”. Sendo estas rimas consoantes, ou seja, apresenta semelhança de consoantes e vogais.
Nos versos (12 e 13), “lua / flutua”, com exceção de ser rima consoante e sim tonante, uma vez que só apresenta semelhanças na vogal tônica.
Há existência de rima pobre, classes gramaticais iguais, esta é em número maior, exemplos na primeira estrofe, (v.1 e v.4), na segunda, (v.5 e v.8), na terceira (v.9, v.10 e v.11) e na quarta estrofe no (v.14).
Há sugestão no poema de mistério e de harmonia da música. Descreve uma viagem aos astros, ao som misterioso que emanam os violinos, “As harmonias dos Estradivários” (v.3) / “Eram da Lua nos clarões dormentes...” (v.4) / (...) / “Dos Astros, pelos trêmulos velários” (v.6) / “Cantam Sonhos de místicos templários”, (v.7).
Tratando em nível lexical, o vocabulário do poema apresenta nível culto, sendo compreensível. Além de apresentar alguns verbos no presente. “Erram (v.4) / Cantam (v.7) / Fluir (v.10) / Parecem (v.10) / vai (v.12) / e Flutua” (v.13), alguns estão no gerúndio, “fluindo (v.11) e subindo (v.14), dando ideia de continuidade da ação.
Alguns substantivos aparecem sob a forma de maiúsculas para dar valor absoluto aos termos, são eles: “Estrela (v.1 e 12) / Estradivários (v.3) / Lua (v.12 e 14) / Astros (v.6) e Sonhos” (v.7).
O poeta faz sua morada no espaço entre os astros e nebulosas. Faz alusão permanente entre o claro e o escuro. Entre sonhos e delírios. Estas sugestões de antíteses mostram que o poeta se debate entre ser negro e querer ser branco. “Estradivários”, ou violino é a forma velada de ser da cor do ébano em contraposto, que espiritualmente é da cor da “Lua”.
A descrição de Cruz e Sousa é onírica, representa a imaginação ou o seu mundo dos sonhos. São desejos contidos que através dos sonhos transpassam um limite imposto por ele mesmo. O sonho é a liberdade em sua totalidade. É a fluidez ou a manifestação do desejo da alma em transcender.
Outra característica do Cisne Negro é o uso constante de adjetivos ou adjetivação dos termos para caracterizar ou atribuir conceitos e qualidades ou dar maior expressão aos sentimentos. Alguns exemplos: “refulgentes (v.1) / alampadários (v.2) / dormentes (v.4) / diluentes (v.5) / velários (v.6) / reverentes (v.8) / aéreos (v.9) / etéreos” (v.10)
Os adjetivos deste poema reforçam características simbolistas. Estas palavras povoam ambientes de alucinações e manifestam a sensibilidade e o psicológico.
O ar é nebuloso, seres etéreos habitam as camadas obscuras e profundas da mente. É o desejo do vago, do espaço e da dormência. Dentro de uma cosmovisão, o poeta visiona os estranhos materiais da atmosfera. É enebriado pelo éter que atravessa a moral, o secreto e o subterrâneo da alma. Assim livre e diluído no espaço os sonhos e as fantasias dão vasão ao esquecimento da dor da existência.
O Dante Negro tinha verdadeira obsessão pela cor branca ou tudo que remetesse a essa cor e aos brilhos. Em Música Misteriosa há palavras de forte conotação com a cor branca como “níveas (v.1) / lácteo” (v.13), e palavras em alusão aos brilhos como “luz (v.2 e v.12) / clarões (v.4) / raios (v.5) / luar (v.11) / claridade (v.13) / astros (v.6) e estrelas” (v.1 e 12), essas palavras evidenciam resultado de um estado da alma, sendo que o poeta traduz ou esgota em todas as possibilidades a cor branca, esta é fortemente associada à ausência de cor. Esse fascínio ou paradoxo é a dor de não aceitar sua cor. O drama inicial de toda a problemática do poeta.
O paradoxo em Cruz e Sousa é que, sendo negro, ele foi ocultar suas origens em uma escola que se traduz num véu branco sugestivo. Se não pode elevar-se pela cor, ele próprio diminuindo-a elevou-se em espírito.
O branco ilustra os versos, dá claridade aos tons sombrios que o poeta desenha. Neste jogo de luz e sombra é que aparece o brilho caleidoscópico intenso pulverizado das estrelas, da lua e dos astros.
A luminosidade cromática é feita de tons alvos e traduz o sentimento ou a sensibilidade do poeta pelos matizes da esfera transcendental. Seu impressionismo resgata as cores e nuances deste universo.
Em nível sintático o poema nos dá a impressão que tudo está acontecendo, em que tudo ao presente pertence, uma vez que em nível lexical mostra os verbos no presente e gerúndio.
A utilização da técnica do encadeamento ou “Enjambement”, ou seja, quando o sentido da frase se interrompe no verso e completa o sentido no verso seguinte se verifica nas seguintes estrofes. Na primeira estrofe, “Tenda de Estrelas níveas, refulgentes” (v.1) / “Que abris a doce luz de alampadários”. (v.2) e “As harmonias dos Estradivários” (v.3) / “Erram da Lua nos clarões dormentes...” (v.4). E na segunda estrofe é exemplo, “Cantam Sonhos de místicos templários”, (v.7) / “De ermitões e de ascetas reverentes”. (v.8)
Ao final de alguns versos há o aparecimento de reticências, “(v.4) / (v.8) / (v.11 e v.14)”, sugerindo a omissão de um ou mais termos, ou algo que poderia ser dito. Fica a impressão da linguagem vaga e fluida remetendo o leitor ao cosmo, dispersando-o na fantasia das palavras, aquele misterioso sopro que vai, num universo, em atmosferas visionárias.
Já em nível semântico algumas palavras nos versos como exemplo: “doce / luz / cantam / sonhos” mostram o uso de sinestesias, “Que a brisa doce luz de alampadários” (v.2) nos dá a sensação de tato, paladar e visão. E o verso “Cantam Sonhos de místicos templários” (v.7) deixa claro o uso da audição e visão.
A presença da metáfora é notada, “Tenda de Estrelas níveas, refulgentes” (v.1) e “As harmonias dos Estradivários” (v.3). Há o uso da metonímia, “As harmonias dos Estradivários” (v.3) e o hipérbato, “Fluir parecem dos Azuis etéreos” (v.10).
As figuras sonoras marcam em Música Misteriosa a forte característica da estética simbolista, a aliteração é uma delas, “PeloS raioS fluídicoS, diluenteS”. (v5). “DoS astroS, peloS TrêmuloS velárioS” (v.6). “CanTam SonhoS de míSTicoS TemplárioS” (v.7) e “CânTicoS vagoS, infiniToS, aéreoS” (v.9).
Observa-se também as assonâncias: “TendA de EstrelAs níveAs, refulgentes”(v.1), “E vAi, de EstrelA A EstrelA, A luz dA LuA”(v.12), “NA lÁcteA clAridAde que flutuA”(v.13) e “A surdinA dAs lÁgrimAs subindo”(v.14).
Para ser verificado a métrica do poema, ou para fazer a escansão é preciso dividi-lo em sílabas poéticas, e para isso é necessário utilizar alguns recursos como a sinalefa, elisão, crase, sinérise, diérise e outros. O poema Música Misteriosa conta com alguns desses recursos, no momento observa-se as sinalefas e crases.
No segundo verso aparece sinalefa na primeira e sétima sílabas, e no oitavo verso, na quinta sílaba. E a crase no primeiro verso da terceira sílaba. Também no décimo segundo verso, na terceira e sétima sílaba.
A preferência pelas formas fixas, neste caso, o soneto, e uma grande preocupação com a métrica, faz identificar em Cruz e Sousa características nítidas do Parnasianismo, uma vez que o poeta fazia com maestria a métrica.
Para conseguir musicalidade, cadência, efeitos de harmonia, o poeta fazia cair na sexta pausa a sílaba tônica de uma palavra esdrúxula, ou seja, uma proparoxítona, colocada estrategicamente em um verso heroico.
Em Música Misteriosa fica claro o jogo de palavra entre música e poesia, inseparáveis. Com a evolução natural dos artistas, cada qual segue seu estilo, porém o espírito humano não distingue esses dois elementos separados. A poesia e a música fazem essa ligação do mundo interior com o exterior.
O Simbolismo é a escola da musicalidade e a poesia é a arte dos sentidos.
(v.) leia-se: verso
Sandra Puff