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domingo, 31 de julho de 2011

Camilo Castelo Branco

Eu sempre gostei e gosto de crianças. Aos poucos a família cresce. Essa semana recebi notícias que mais um sobrinho(a) estaria vindo. Claro que crianças nos rejuvenescem, são fofas, vão crescendo e sendo os reizinhos ou princesinhas do lar, apenas temos que cuidar para não criarmos verdadeiros tiranos!, mas isso não vem ao caso aqui. Fiquei muito feliz com a novidade, porém a notícia já havia virado jornal de ontem, a nova era o suposto nome do bebê.
Entre três nomes que vi no noticiário do email, um chamou-me a atenção - Camilo(a) - Gosto desse nome, parece-me um daqueles nomes pomposos antigos bem ao estilo vintage. Mas fora os ares de época, lembrei-me do escritor português, nascido em Lisboa em 16 de março de 1825, Camilo Castelo Branco, assim ele é conhecido. Diz a história que sua vida foi muitíssimo conturbada, casou-se aos 16 anos!, casou novamente, teve filhos, foi boêmio, pela escrita e estilo fica claro que pertenceu ao Romantismo, alguns dizem que ao Realismo, verdade seja dita, Camilo escreveu muito, muito mesmo. Assim como um romântico apaixonou-se deveras. Era um boa gente.
E como um escritor em tempo integral, escreveu mais de 260 obras, entre elas, romances, comédias, poemas, ensaios, folhetins, traduções, cartas, prefácios e tanto assinava como Camilo Castelo Branco ou usava algum pseudônimo, um deles A.E.I.O.U.Y [o rapaz não era fácil, rs]. Camilo foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver de sua literatura, claro que ele fazia especulações, moldava-se aos gostos que estavam na moda. Esperto ele. Já entendia de mercado editorial.
Mas, ao falar em gostos, quero ressaltar duas obras: Amor de Perdição (1862), só não pense que tudo está perdido. Leia também: Amor de Salvação (1864).
E que venha Camilo(a)!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Fragmentação, Completude e Pluralização: Identidades Femininas na Obra de José Endoença Martins

Está na moda falar em questões de gênero, já vai tarde, fiz uma pesquisa como bolsista, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, juntamente com o Professor Doutor em Literatura José Endoença Martins, um precursor em pesquisas de gênero e raça. Sabíamos que a pesquisa seguiria os rumos do gênero, seguido também da questão de raça.
Meu orientador, um afro-descendente, deu-me total liberdade para a escolha das obras que me levariam à pesquisa. Sempre penso além da conta, mas sobre essa pesquisa as obras já estavam escolhidas antes de meu orientador, sempre muito solícito, dar várias sugestões. Seriam seus próprios livros, onde desfilavam mulheres para tratar a questão de gênero, e no percurso desse desfile passavam as negras e as brancas para falarmos de raça. Começo aqui essa síntese, esse artigo, um pequeno produto de nossa pesquisa.

Sandra Bernardes Puff
José Endoença Martins

RESUMO:
O estudo analisa as aproximações entre fragmentação, completude e pluralização e as identidades de gênero e raça de personas e personagens na obra de José Endoença Martins: personas poéticas nos poemas de Me Pagam Pra Kaput (1986), Bertília na peça de teatro O Olho da Cor (2003), Capitu no romance Enquanto Isso em Dom Casmurro (1993), e a Vizinha nos ensaios A Vizinha de Bell, Drummond e Whitman (2004). O estudo se vale da noção de Hall (2001) de que as identidades pós-modernas são móveis. “O sujeito pós-moderno,” ele esclarece, é “conceituado como não tendo uma identidade fixa, essencial, permanente. A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2001: 12-13) Nos limite da mobilidade identitária, as personas poéticas aliam identidades ao movimento entre fragmentação e completude da mulher. Bertília, personagem central da peça de teatra, alia suas identidades à pluralização. Ela desenvolve identidades de mulher negra, branca e híbrida (branca e negra). No romance, Capitu também aproxima identidades da pluralização. Em sua capacidade de pluralizar-se ela se move entre heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade. Finalmente, a Vizinha, personagem central dos ensaios literários, relaciona identidades a uma mobilidade complexa que avança da fragmentação à completude à pluralização.
PALAVRAS-CHAVE: Fragmentação, Completude, Pluralização, Identidades.

Introdução
No artigo discutimos os resultados do estudo Identidades de Gênero e Raça na Obra de José Endoença Martins. Analisamos questões de gênero e raça em suas articulações com os processos de fragmentação, completude e pluralização pelo que passam as personas e personagens femininas em quatro obras do autor: os poemas Me Pagam Pra Kaput (1986), o teatro O Olho da Cor (2003), o romance Enquanto Isso Em Dom Casmurro (1993) e os ensaios literários A Vizinha de Bell, Drummond E Whitman (2004).
Avaliamos a mobilidade da mulher pós-moderna em sua subjetividade fluida, contraditória e multifacetada. Pensamos na capacidade de ativar mobilidade identitária do sujeito pós-moderno. Valemo-nos da visão que Hall (2001) tem do sujeito pós-moderno. Para ele, “o sujeito pós-moderno” é “conceituado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.” (HALL, 2001, p. 12-13) Procuramos mostrar que a mobilidade identitária das personas e personagens femininas estudadas avançam da fragmentação para a completude e deságuam na pluralização.
A metodologia organiza a discussão em quatro aspectos. Inicialmente, nos concentraremos no modo como a mulher avança da fragmentação para a completude no livro de poemas Me Pagam Pra Kaput (1986). A fragmentação estará presente na ênfase das partes anatômicas, eróticas e erógenas. Serão, principalmente, os seios, as pernas, as coxas, e o púbis. A completude feminina ficará visível na análise do substantivo mulher como ideia de um feminino completo. Insistiremos que a mulher é mais do que todas as suas partes. Neste sentido, avançaremos da fragmentação (concentração nas partes) para a completude (ênfase no todo).
Depois, estudaremos a pluralização de Bertília, personagem de O Olho da Cor (2003). Entendemos pluralização como ampliação nas experiências identitárias da mulher. Na peça, a mulher deseja mais do que ser um ser completo, total. Ela insiste em pluralizar-se, isto é, tornar-se mais do que uma, fazer-se duas, várias. Trataremos de uma pluralização racial. Ela deseja ser negra, branca, e híbrida (branca e negra) quando for do seu interesse. Em seguida, nos ateremos à discussão da pluralização de Capitu no romance Enquanto Isso em Dom Casmurro (1993). Analisaremos as formas como a pluralização da mulher fundirá experiências raciais e vivências de sexualidade. Estudaremos as três sexualidades de Capitu: heterossexual, homossexual e bissexual. Por fim, discutiremos as experiências identitárias da vizinha na obra A Vizinha de Bell, Drummond e Whitman (2004). Mostraremos como a vizinha incorpora as três experiências presentes nos três livros anteriores. Isto é, procuraremos demonstrar como ela exibirá, simultaneamente, as identidades de fragmentação, completude e pluralização.
 
1. Revisão da Literatura: Nauemblu, Identidade e Womanismo Pós-Modernos.
Dois textos são importantes para uma compreensão da literatura blumenauense: primeiro, Saudade e Esperança: o Dualismo do Imigrante Alemão Refletido em sua Literatura, de Valburga Huber (1993); depois, Blumenalva e Nauemblu: Metáforas de uma História Literária de Blumenau, de José Endoença Martins (2000). No livro, Huber acredita que a literatura blumenauense é uma literatura mista, híbrida e dualista em que “ora é o sentir alemão que se inflama, mesmo quando trata de temas brasileiros, pois estes são sentidos de maneira alemã; ora predomina o modo de sentir brasileiro” (HUBER, 1993, p. 97). No ensaio, Martins estabelece duas perspectivas para a apreciação da literatura local: Blumenalva e Nauemblu. Blumenalva “associada a um enfoque teuto-blumenauense, realça a visão monolítica da produção literária local” (MARTINS, 2000: 08). Nauemblu “dissociada do enfoque teuto-blumenauense, deseja superar a visão monolítica da germanidade para propor uma experiência plural” (MARTINS, 2000, p. 11). Ele conclui que “a historiografia literária local tende a consignar preocupações literárias mais próximas da concepção de Nauemblu” (MARTINS, 2000, p. 14).
A metáfora Nauemblu percorre a obra do escritor José Endoença Martins de maneira muito peculiar em quatro obras: a coleção de poemas Me Pagam Pra Kaput (1986), o romance Enquanto Isso em Dom Casmurro (1993), a peça de teatro O Olho da Cor (2003), e a coleção de ensaios-narrativos A Vizinha de Bel, Drummond e Whitman (2004) Em 1986, o livro de poemas Me Pagam Pra Kaput inicia a trajetória poética de Martins. A poesia do autor, a partir deste livro, é chamada por ele mesmo de poema minuto, o que o torna um autor essencialmente Nauemblu. No livro Poema Minuto: A Poética do Tempo (1991), Martins elabora uma teoria para caracterizar a poesia que cria. Para ele, “o poema minuto é curto ou não. Tão curto, ou mais, que um hai-kai japonês, mas não tem preocupações com a métrica fixa” (MARTINS, 1991, p. 14). Lauro Junkes (1991) e Dário Deschamps (1991) analisam o poema minuto do poeta. Junkes afirma que o autor “sabe que poesia se faz com palavras. Sintético e direto, seus poemas geralmente são curtos, sem títulos, valorizando adequadamente a partilha do discurso poético em versos e sua significativa distribuição visual e semântica pela página” (JUNKES, APUD MARTINS, 1991, p. 62-63). Para Deschamps “o poema minuto é uma forma: mais, é a forma da modernidade de expressão de José Endoença Martins. Não só pela forma, breve, comunicativa, expressiva, muito mais, pela reelaboração da linguagem do nosso tempo” (DESCHAMPS, APUD MARTINS, 1991, p. 67).
Enquanto Isso em Dom Casmurro (1993) é o primeiro romance de Martins. A narrativa introduz questões identitárias de gênero e raça. Lauro Junkes (1994) e Lina Leal Sabino (2000) discutem a obra. Para Junkes a narrativa introduz “o tema negro, levado à plenitude no final (referência inquestionável aos dois autores dos romances)” (JUNKES, 1994, p. 05). Sabino se concentra na proposta pós-moderna do texto. Escreve que “a narrativa das peripécias de uma Capitu pós-moderna se torna, ao mesmo tempo, a história dos anos 90 com todos os seus absurdos e contradições. Uma paródia tão forte que o leitor não consegue ficar a ela imune, pois, ou ele a odeia pela grotesca homenagem que presta a Machado de Assis, ou a ama pela desabrida carnavalização e antropofagia” (SABINO, 2000, p. 01).
Na peça de teatro O olho da Cor, Martins (2003) discute o feminino em várias raças. Escreve que “na verdade, a cor não é fixa, ou a mesma o tempo todo. Ela varia. Ora, a mulher é negra, depois fica branca e, em seguida, pode ser negra e branca.” (MARTINS, 2003, p. 124). Professor Dilvo Ristoff (2003) ressalta a característica fluida da mulher protagonista. Para ele a aproximação entre o texto e a vida do autor é fundamental. Explica que “Endoença Martins consegue dar carne e osso àquilo que, para a maioria de nós, era apenas discurso” (RISTOFF, 2003, p. 09).
A Vizinha de Bell, Drummond e Whitman (2004) é uma experiência de crítica literária. A análise dos textos se processa através do diálogo entre uma mulher – a Vizinha, loura, inteligente e sensível à literatura – e o narrador. Nos textos, a mulher se investe de subjetividade ativa. Ela não apenas conhece literatura, ela também ensina literatura ao narrador. Toda semana, a Vizinha se dirige ao apartamento do narrador e ministra sua aula literária. Martins explica como se dão os encontros: “toda manhã ela aporta lá em casa. É minha assessora para assuntos de poesia e literatura. Passamos horas deleitosas em mútua companhia, e na da poesia” (MARTINS, 2004, p. 01).
A construção de identidades é uma decisão política. Alexander (1997) vê identidade como “uma busca do ser e de suas relações com contextos e realidades sociais” (ALEXANDER, 1997, p. 379). Esclarece que os negros não podem ser separados de um fato histórico na sua peregrinação no Novo Mundo, a escravidão. Afirma que são “moldados pelas consequências da escravidão: emancipação e traição” (ALEXANDER, 1997, p. 379) Os textos literários negros dão ênfase a temas como auto-afirmação, legitimação social, inclusão e exclusão.
Na Literatura Blumenauense, Martins associa a construção da identidade da mulher negra àquilo que chama de negritice. No artigo Negritice: Repetição e Revisão (2003), informa que negritice apresenta dois elementos: um positivo, outro negativo. O elemento positivo – Negritude – diz respeito à imagem de orgulho que a mulher negra tem de si mesma. Por outro lado, Negrice é o elemento negativo e dá conta das cargas injuriosas que os outros lançam às mulheres negras brasileiras, com o intuito de impedir que elas construam imagens positivas de si mesmas.
As identidades são vistas como construções culturais móveis e fluídas. Associam-se a duas construções culturais: gênero e raça. No poema minuto, romance Enquanto Isso em Dom Casmurro, peça O Olho da Cor, e crítica literária A Vizinha de Bell, Drummond e Whitman, as personas poéticas e as personagens Capitu, Bertília, e a Vizinha perseguem a construção de suas identidades nas suas relações de gênero e raça. Jane Flax (1995) explica que “raça, localização geográfica, identidade sexual, idade, condição física e classe participam de múltiplos e contraditórios modos na constituição da subjetividade da mulher e nos significados e natureza das suas práticas” (FLAX, 1995, p. 859). Amittai F. Aviram (1995) informa que “gênero é um aspecto da construção geral do sujeito, e pede uma teoria que dê conta do fato de que sujeitos que falam, pensam, agem e se percebem individualmente não nascem assim, mas são formados com traços culturalmente específicos num processo de desenvolvimento inconsciente” (AVIRAM, 1995, p. 343).
Alice Walker (1983) funde no termo “womanismo” as categorias de gênero, raça à mulher negra. No ‘womanismo’ Walker inclui Uma mulher que ama outras mulheres, sexualmente e/ou não sexualmente. Aprecia e prefere a cultura da mulher, a flexibilidade emocional da mulher (valoriza as lágrimas como um contra-ponto natural ao riso), e a força da mulher. À vezes ama homens individualmente, sexualmente e/ou não sexualmente. Compromete-se com a sobrevivência e a completude do seu povo, homens e mulheres. (WALKER, 1983, p. xi).
2. Gênero, Fragmentação e Completude em “Me Pagam Pra Kaput”
Primeiro, a definição de identidade, gênero e raça. Alexander (1997) escreve que “a identidade deve ser vista como uma busca do ser e de suas relações com contextos e realidades sociais” (ALEXANDER, 1997, p. 379). Jane Flax (1995) esclarece que “o construtivismo que funde identidades, gênero e raça se torna possível no momento pós-moderno em que vivemos” (FLAX, 1995, p. 859). E Amittai F. Aviram (1995) informa que “gênero é um aspecto da construção geral do sujeito. (...) Sujeitos que falam, pensam, agem e se percebem individualmente não nascem assim, mas são formados com traços culturalmente específicos num processo de desenvolvimento inconsciente” (AVIRAM, 1995, p. 343).
Em Me Pagam Pra Kaput encontramos aproximações entre gênero e identidade. Os poemas mostram como a mulher desvela identidade móvel que vai da fragmentação à completude. A fragmentação se concentra nas partes eróticas do corpo feminino: os seios, as coxas, o púbis. Em relação aos seios, o narrador diz: “um top-less/ quando acontece/um seio sobe/outro desce/e resplandecem” (MARTINS, 1986, p. 37). Quando se refere às coxas, ele fala: “não precisa ter pernas, coxas/pêlos/(...)” (MARTINS, 1986, p. 111) Além dos seios e das coxas, os púbis também recebem destaque na fragmentação feminina. “Entre pêlos louros e amanhecidos/púbis úmidos/e clitóris despertos e receptivos” (MARTINS, 1986, p. 91), realça o narrador.
A fragmentação feminina decorre da ideia de que a mulher tem sido transformada em objeto de consumo na sociedade contemporânea. Os poemas são frutos da sociedade e com ela se identificam. Os narradores dos poemas se voltam para algumas partes femininas, e negligenciam a mulher como um todo completo. É neste contexto poético-social que a mulher procura o seu ser e “suas relações como contextos e realidades sociais” (ALEXANDER, 1997, p. 379), a autora escreve a respeito da identidade.
Nem tudo é fragmentação feminina nos textos poéticos do autor. Alguns poemas apresentam a completude da mulher. Neles, os narradores voltam seus olhares à mulher, não às partes. A completude associa-se ao amor, medo, dor, vida e outros aspectos. “Uma mulher/ na minha frente; /uma melhor/ na minha fronte; / uma mulher/ de queda (dura)/ uma melhor/ de cada vez/ uma mulher/ em cada queda/ dura em qualquer/ mês” (MARTINS, 1986, p. 16), diz um narrador. A repetição da palavra mulher mostra o olhar do narrador voltado para todo feminino. Ele esquece as partes (seios, boca, púbis) que o preocupavam no processo de fragmentação feminina. Há outros exemplos da completude feminina: “há uma mulher/dentro de mim/que explode/em hora inusitada” (MARTINS, 1986, p. 152). Ou ainda: “quando uma mulher/encontra um homem/urge um ritual./Meu Deus/pra que tudo isso/quando uma mulher/encontra um homem/na alameda/ou num quintal?” (MARTINS, 1986, p. 110). O olhar sobre a mulher redimensiona a identidade feminina. O movimento da fragmentação à completude é, certamente, positivo, mas ainda conserva um certo aspecto do consumismo vigente na sociedade, que os poemas ratificam. Isto é, o olhar continua masculino, e a completude ainda precisa afirmar agência feminina. A mulher ainda não é sujeito autônomo. Fragmentação e completude ainda são, segundo Jane Flax (1995), “múltiplos e contraditórios modos na constituição da subjetivação da mulher e nos significados e natureza das suas práticas” (FLAX, 1995, p. 859).
No romance Enquanto Isso Em Casmurro é que se dá a pluralização de Capitu, a personagem central da história. Como acontece com a Bertília, personagem da peça de teatro O Olho da Cor, a pluralização de Capitu está associada às categorias de gênero e raça. Como acontece com Bertília, personagem da peça, Capitu é a mulher que se pluraliza no romance. Aqui também, a pluralização da personagem está associada à capacidade que ela tem de mover-se através da linguagem. Para Hall (2001) identidades são sempre móveis e transmigram entre subjetividades. Em sua mobilidade identitária, Capitu deixa um ambiente de linguagem para entrar num outro espaço linguístico. Na verdade, ela sai de Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, e se dirige a Enquanto Isso em Dom Casmurro, romance de José Endoença Martins (1993). Nas primeiras páginas, o narrador de Martins informa que “Capitu já se encontrava na nova história. Proferia as primeiras palavras. Sujas. Para sentir o efeito da linguagem na voz própria e ouvidos” (MARTINS, 1993, p. 09).
3. Gênero, Raça e Pluralização em “O Olho da Cor”
A pluralização feminina é a possibilidade de livrar a mulher da conotação negativa de objeto de consumo do olhar masculino. O Olho da Cor, a peça de teatro de José Endoença Martins (2003), parece o ambiente desta possibilidade. Na peça, a personagem Bertília, além de mulher completa, também incorpora três tipos de pluralização: como mulher negra, mulher branca e mulher híbrida.
A pluralização da Bertília negra acontece porque ela tem a capacidade de “quando desejar, vagar entre fantasia e realidade – entre a literatura e a vida real” (MARTINS, 2003, p. 23). A pluralização também permite que Bertília vague entre subjetividades diferentes. Por isso, Bertília é mulher pluralizada e portadora de identidades múltiplas. No primeiro ato da peça, a pluralização de Bertília negra aparece na voz das crianças negras que falam: Olhem bem, esta é a nossa mãe. Foi nossa mãe querida no passado, será nossa mãe amada no futuro. É a nossa irmã também. É a nossa filha. (...) Simboliza e encarna todas as mulheres: Lilith, Eva, Maria, Cleópatra,Capitu, Zezé Motta, Sula Miranda, Pecola Breedlove, Ellen Olenska, May Archer, Bertília. É mutável, fluida, volátil, quando deseja. Não tem forma fixa” (MARTINS, 2003, p. 24).
A pluralização de Bertília resulta da forma como ela gerencia o desejo. O desejo permite que ela se transforme em outras identidades femininas, tão complexas e distantes literária, linguística e geograficamente, como Pecola Breedlove, personagem do romance O Olho Mais Azul, escrito em inglês pela autora afro-americana Toni Morrison. “Como que trazida do inverno de Lorain, Ohio, para o calor de dezembro do Jaracumba, Blumenau, pelo desejo de Pecola/Bertília, uma menina negra sai do livro, pula para o quarto, mas mantém uma certa distância da leitora, por precaução” (MARTINS, 2003, p. 45), informa o narrador. Como Pecola Breedlove, Bertília está mergulhada numa crise identitária. Porém, diferente da personagem negra de Toni Morrison que anseia possuir valores brancos ao desejar ter olhos azuis, Bertília permanece fiel à cultura do seu povo e restringe seus desejos identitários ao mundo negro.
A pluralização identitária de Bertília negra vai além de Pecola e incorpora outras identidades femininas. A própria Bertília explica o fenômeno da sua pluralização. “É uma qualidade minha. Quando desejo algo ardentemente, acontece. Já fiz isso em Enquanto Isso em Dom Casmurro e virei Capitu, Sula Miranda, Zezé Motta e Bertília. O desejo é minha única realidade” (MARTINS, 2003, p. 50), explica a personagem. Outro dado importante é a associação de Bertília à música Sarará Miolo, de Gilberto Gil. “Sara, sara, sara cura dessa doença de branco de querer cabelo liso. Cabelo duro é preciso, que é para ser você, criolo” (GIL, APUD MARTINS, 2003, p. 43/44), aconselha o cantor.
Se do ponto de vista de Bertília, a auto-pluralização é uma bênção, do ponto de vista de quem se opõe a ela, trata-se de uma maldição. As meninas brancas, em oposição às meninas negras, investem contra as qualidades de Bertília valorizadas pelas negras. Elas reagem, negando a pluralidade identitária da personagem, dizendo: Nada nela é mítico, universal. É uma reles costureira, com um agravante: é feia. Olhem bem, ela é feia mesmo (...). Nem mãe, nem irmã, nem filha. Sempre foi a nossa empregada (...) é assalariada de salário mínimo. Não demora muito será uma desempregada. Agora, quer ser igual a nós (MARTINS, 2003, p. 24).Flax (1995) informa que na pós-modernidade “raça, localização geográfica, identidade sexual, idade, condição física e classe também contribuem em múltiplos e contraditórios modos na construção da subjetividade da mulher e nos significados e natureza das suas práticas” (FLAX, 1995, p. 859). Suas palavras explicam as contradições de Bertília. À certa altura da peça, ela se identifica com as experiências de meninas negras como Pecola Breedlove, porém não aceita suas características físicas de mulher negra. “Odeio essa cara preta... Que olhos negros inexpressivos... esse beiço... grosso que daria para carregar um prato nele. Olha esse nariz grosso e achatado. Alguém pode gostar de um nariz desses?” (MARTINS, 2003, p. 43). É como reage as suas peculiaridades raciais.

Em processo de pluralização, Bertília não é somente negra, mas também branca. E se pluraliza como mulher branca também. No segundo ato de O Olho da Cor, ela assume a cor branca. Bertília branca se aceita e se identifica com várias personas literárias. A primeira manifestação de pluralização chega nas palavras do narrador: “é a única pessoa festejada ou contaminada - pela terrível capacidade de poder, quando desejar, pervagar entre fantasia e a realidade, entre literatura e a vida real” (MARTINS, 2003, p. 63). Como ele, as meninas louras do coro também exaltam a pluralização de Bertília. Elas falam: “carrega no desejo todas as estórias imaginárias e reais da mulher.(...): Lilith, Eva, Maria, Cleópatra, Capitu, Zezé Motta, Sula Miranda, Pecola Breedlove, Ellen Olenska, May Archer, Bertília. É mutável, fluida, volátil quando deseja. Não tem forma fixa” (MARTINS, 2003, p. 64).
Bertília branca também assume múltiplas identidades, através do desejo. Elas fazem-na movimentar-se entre realidade e ficção. Por meio do desejo, ela transforma-se em Ellen Olenska, personagem de The Age of Innocence, da escritora americana Edith Warthon (1985). “Bertília, então, esvai-se e, no lugar dela, mas idêntica a ela, surge Ellen Olenska. É uma transformação rápida, indolor, mas completa” (MARTINS, 2003, p. 80), o narrador esclarece. Como Ellen Olenska/Michelle Pfeiffer/ Bertília representa a inocência e a aceitação dos valores brancos associados à mulher. Ela expressa estes valores no corpo, nos atributos físicos. “Pára diante dele (o espelho) e olha fixamente a própria imagem refletida. Fica deslumbrada. Ela é bela. Saúda a nudez da imagem refletida. – Bom dia, maravilhosa Bertília. Bom dia, gata bela” (MARTINS, 2003, p. 68), conta o narrador. Um adicional aspecto na associação de Bertília aos valores brancos se encontra na música de Caetano Veloso. “Você é linda mais que demais. Fonte de mel nos olhos de gueixa. Você é forte, dentes, e músculos, peitos e lábios,” (VELOSO APUD MARTINS, 2003, p. 68-69), canta o baiano. A pluralização dela, porém, é contestada. “Nada nela é mítico, universal. É mais uma simples professora,” (MARTINS, 2003, p. 64), contestam as meninas negras.
Flax (1995) esclarece que, na pós-modernidade, “raça, localização geográfica, identidade sexual, idade, condição física e classe também contribuem em múltiplos e contraditórios modos na construção da subjetividade da mulher e nos significados e natureza das suas práticas” (FLAX, 1995, p. 859). A ausência de conflitos de Bertília branca está certamente no fato de que ela vê sua beleza como um valor branco, universal e inquestionável. A própria Bertília exemplifica a associação da mulher branca a este valor. “Sou linda e sei viver. Aliás, ser linda é saber viver” (MARTINS, 2003, p. 70), ela explica.
A pluralização de Bertília movimenta-se do negro ao branco, ao híbrido. A hibridização de Bertília aparece no terceiro ato de O Olho da Cor. No ato, Bertília negra e branca ressurge como primeira e segunda mulher e as meninas negras e brancas aparecem como primeiro e segundo grupo. Os grupos étnicos pedem que Bertília tome uma decisão a respeito da cor que vai assumir. “Decide, Bertilia, para que a luz tome as trevas, o dia reverta a escuridão e a vida destrua a invisibilidade. Decide, Bertilia, a tua cor e vem para a luz. Branca ou negra, negra ou branca, branca e negra, negra e branca” (MARTINS, 2003, p. 96), as meninas insistem.
No ato três, as duas mulheres estão envoltas em trevas profundas, por isso não conseguem se ver, nem uma pode ver a outra. O lugar em que se encontram é lingüístico. É o olho da cor, o coração das trevas, o lugar da linguagem. Na linguagem, as duas mulheres não sabem se são brancas ou negras. O que sabem é que são construções da linguagem. A primeira mulher fala: “A linguagem pode inventar, criar tudo” (MARTINS, 2003, p. 101). A segunda responde: “Também pode criar a nós duas.” (MARTINS, 2003, p. 102). Elas explicam sua passagem pelas linguagens dos romances já mencionados: de Toni Morrison, Edith Wharton, Machado de Assis e José Endoença Martins. “Somos a mais longa invenção da linguagem na tradição literária brasileira, mas mesmo assim ainda não estamos completas”.(MARTINS, 2003, p. 102), elas falam, enfatizando a noção de identidade como processo, um vir a ser.
No terceiro ato, identidade, cor e desejo são construções linguísticas que desenvolvem a pluralização híbrida de Bertília. O narrador explica a fusão, explicando que “as duas cores numa mulher, numa cor múltipla. Na verdade, a cor não é fixa, ou a mesma o tempo todo. Ela varia. Ora, a mulher é negra, depois fica branca e, em seguida, pode ser negra e branca.” (MARTINS, 2003, p. 124). Como resultado, surge a mulher nova, com dúvidas existenciais e identitárias. Por isso, ela pergunta a si mesma:  Será que vou saber conviver comigo mesma? Com meu olho azul sem furá-lo, quando for negra? Com meu olho negro sem desprezá-lo, quando for branca? Com os dois, quando as duas cores me cobrirem? Será que vou conseguir? Será que vou conseguir aceitar outras pessoas em iguais, ambíguas e múltiplas situações?” (MARTINS, 2003, p. 124). 4. Gênero, Raça e Pluralização em “Enquanto Isso em Dom Casmurro”
Além da linguagem, outro aspecto que marca a pluralização de Capitu é o desejo. Para que possa pluralizar-se ela precisa desejar possuir mobilidade intertextual, o movimento que a faz mover-se do primeiro romance ao segundo. Basta que ela deseje e o movimento entre os dois textos acontece. De novo, o narrador relata: “quando desejasse ela sairia de Dom Casmurro e se abrigaria em Enquanto Isso Em Dom Casmurro. Na nova aventura, vida e divertimento a aguardavam. Aquilo era felicidade para ela: viajar pela linguagem, pelas realidades, vidas e divertimentos que só a linguagem pode oferecer” (MARTINS, 1993, p. 32).
Uma outra razão para pluralização de Capitu se liga à indignação que a sua situação em Dom Casmurro lhe causa. “Indignação era o que jogava a nossa moça para fora do romance e para dentro das infinitas possibilidades” (MARTINS, 1993, p. 11), conta o narrador. Por isso, sua saída é inesperada, sem despedidas. Desatentos, os outros personagens desconheciam sua insatisfação. “Capitu não avisou a ninguém que estava saindo do romance. Nem se despediu dos outros personagens. Pensou que eles ficariam chocados quando descobrissem que ela não estava mais na historia. Que não funcionariam sem ela” (MARTINS, 1993, p. 11), o narrador esclarece.
Na categoria de gênero, a pluralização de Capitu se dá através das várias personalidades, ou identidades, femininas que ela assume. Algumas dessas identidades são as de Bertília, Zezé Motta e Sula Miranda. A pluralização resulta do desejo que permite que ela queira pluralizar-se. A respeito do desejo, o narrador nos informa: “o desejo. A marca de Capitu. Quando desejasse, o que desejasse aconteceria. Na hora” (MARTINS, 1993, p. 12). Inicialmente, ela deseja ser negra. De novo é o narrador que nos informa a respeito deste desejo racial. “A Raça de Capitu, negra. Nem mulata, nem crioula. Capitu era negra” (MARTINS, 1993, p.12), ele conta. Através do desejo Capitu assume a identidade da negra Bertília. Bertília surge de um tempo em que Blumenau era ficcionalmente negra e vivia como tal. Ficamos sabendo deste tempo e da mulher pelo narrador: “esta cidade já foi negra bem negra. Tão negra como a negritude da louca Bertília, do vereador Badias, do Príncipe Negro. De outros negros, muitos outros negros. Tantos negros” (MARTINS, 1993, p.10). A volta da negritude, depois de um período branco, se dá quando Capitu assume as características negras da Bertília. “A alma é negra. Que ela volte, então. A louca negra alma de Bertília voltará” (MARTINS, 1993, p.10), o narrador explicita. No final do romance, a referência aos elementos negros da cidade de Blumenau é expressa pela própria Bertília, numa reunião de mulheres negras comandada por Capitu. “Esta cidade também já se viu negra, tão negra como a negritude da louca Bertília. Agora, a louca negra alma de Bertília voltou” (MARTINS, 1993, p.125), fala a personagem.
A pluralização de Capitu se amplia para além de Bertília e ela, então, assume a identidade de Zezé Motta. Novamente o desejo aciona esta nova transformação identitária. O narrador relata:  No momento em que [Capitu] ultrapassou o limite temporal entre 1899, ano de Dom Casmurro, e 1992, época de Enquanto Isso Em Dom Casmurro, Capitu desejou. Desejou a roupa (...). Desejou a cor e o cabelo à Zezé Motta. Enquanto pisou o solo blumenauense, para exibir o traseiro gostoso, Capitu era esta negra cow-girl. Como o enxaimel, ela era um simulacro” (MARTINS, 1993, p. 12).Todavia, apesar do desejo, a Capitu-Zezé Motta se ressente da forma como a identificação é feita. O narrador procura dar conta do tipo de sentimento que ela nutre pelo autor. “Com certeza, naquele momento, Capitu estava me amaldiçoando por lhe impingir aquela roupa brega agro-pink (...), aquela cara negra de Zezé Motta, aquela cidade em suas comédias estéticas” (MARTINS, 1993, p.13). Vencida a indignação, a identificação de Capitu como Zezé Motta evidencia-se novamente numa outra parte da narrativa: “Capitu se vestiu. (...), fundida à negra Zezé Motta, de novo. O jeans pink, e a jaqueta da mesma cor. O chapéu nas costas, as botas cow-boy longas e a faixa aplicada à testa: Capitu, an Outsider” (MARTINS, 1993, p.68-69).
Em mais uma ampliação do fenômeno de pluralização, Capitu assume a identidade de Sula Miranda. Essa identidade também se realiza a partir da experiência do desejo. Capitu dá vazão ao desejo: “o ritual do desejo. Capitu obedecia-o cegamente. Quando pressentia que algum desejo precisava ser feito, Capitu transformava-se no clone negro de Sula Miranda. Era preciso” (MARTINS, 1993, p. 54). Capitu se identifica com o intenso foco sensual que Sula Miranda irradia como grande ícone dos anos 80. Vista pela sociedade como um produto de consumo, Sula Miranda transmite uma imagem de cow-girl, transbordando sensualidade e um certo erotismo que hipnotiza a mulher comum, provocando admiração e atiçando o desejo enrustido em toda mulher que vive o ritual cotidiano. Sula Miranda reflete o que todas as mulheres gostariam de ser – uma manifestação sensual e erótica em sua época. A sensualidade de Sula Miranda simboliza a expectativa de uma década. Ela surge como uma mulher especialmente feminina, desejada, emancipada, e independente. Além disso, ela não deseja perder as características e delicadezas femininas, com atrativos, poderes físicos, materiais e sociais. Ao transmutar-se em Sula Miranda, Capitu adquire todas qualidades da cantora. “Travestida de Sula Miranda e transportada de Dom Casmurro, Capitu era a própria pós-modernidade comoditificada” (MARTINS, 1993, p.119), assim a vê o narrador.
Em extraordinária mobilidade identitária, Capitu transita entre duas obras. Isso já é capacidade que lhe garante poder, porém Capitu quer mais. Ao transmutar-se em Sula Miranda, Capitu tem poder, sensualidade e independência. Estes atributos a levam a questionar Machado de Assis por tê-la transformado naquilo que ela fora em Dom Casmurro. Agora, na nova história, ela tem o que cobrar dele. “Machadinho, como é que você faz uma monstruosidade dessas comigo?” (MARTINS, 1993, p. 24), ela insiste com o escritor, “bem Sula Miranda e pink. O pó” (MARTINS, 1993, p. 23). A Capitu que já fora negra ao assumir as identidades de Bertília e Zezé Motta, também aparece negra como Sula Miranda. Nela a aproximação entre gênero, raça e pluralização parece alcançar seu ponto mais elevado. Ficamos sabemos desta sua condição híbrida – branca e negra – através da conversa entre uma mãe e uma filha, turistas as duas. Diante da Capitu-Sula Miranda, desmaiada no pátio da Oktoberfest, as duas reagem: “Filha: Olha a Sula Miranda, mãe. Mãe: Uma Sula Miranda negra, minha filhinha? Pára com isso” (MARTINS, 1993, p.111).
Além da sua dupla pluralização de gênero e raça, Capitu assume um outro tipo de pluralização marcada pela sexualidade. Em função de sua sexualidade múltipla ela apresenta comportamentos heterossexuais, homossexuais e bissexuais. Capitu move-se entre estas experiências sexuais tão intensas. A identidade heterossexual de Capitu está presente no inusitado relacionamento amoroso que mantém com o ator americano Michael Douglas. O encontro com o astro do cinema é apresentado pelo narrador: “Capitu se vestiu. A Sula Miranda fundida à negra Zezé Motta, de novo. O jeans pink, e a jaqueta da mesma cor. O chapéu arreado nas costas, as botas cowboy longas e a faixa aplicada à testa: Capitu an outsider. Saiu para o encontro com Michael Douglas”. (MARTINS, 1993, p.69). Capitu exala sensualidade e seu desejo sexual é constantemente estimulado. A relação que tem com Michael Douglas é resultado de seu desejo de sexo. Imersa e influenciada pela fascinante atmosfera criada entre o personagem de Michael Douglas e Glen Close no filme Atração Fatal, Capitu deixa-se levar pela sedução. Capitu gritou no quarto.(...) Capitu quis se levantar. Pensou em se vestir de novo. Desistiu. Ainda achava que Michael seria um bom investimento, sexual. Mas aquele gringo de merda era lerdo. (...) Não teve mais tempo. Felina, Capitu lançou-se sobre o americano.(...) Foram cinco minutos de dramaticidade sexual” (MARTINS, 1993, p. 71).
A identidade heterossexual de Capitu também se dirige ao pivete que vende sanduíche na praça. De novo, ela se vale do desejo para se desvencilhar de uma situação complicada. Para aplacar sua fome, na falta de dinheiro, ela troca comida por sexo. Ela precisa pagar o lanche, o hot-dog, que vai comer, ao exagerado preço de 150 mil cruzeiros. Como não possui aquela quantia ela convence o pivete a aceitar sexo em troca. “O pivete olhou Capitu nos olhos. A moça piscou. O pivete piscou, em seguida fez um sinal com a cabeça. Capitu deu a vota e se postou ao lado do pivete.(...) Capitu sabia que o dinheiro podia ser substituído. O pivete queria que o dinheiro fosse substituído. As trocas se perpetuaram” (MARTINS, 1993, p, 81), o narrador comenta.
Além da identidade heterossexual, há espaço para que Capitu desenvolva sua identidade homossexual. Sua mobilidade sexual manifestada na homossexualidade está associada à personagem Conike, a empregada alemã da personagem. Capitu se sente atraída pela beleza e sensualidade da moça. Conike se deixa seduzir pela segurança, doçura e carinho da patroa. Estas qualidades das duas mulheres anulam as relações de classe que existem entre patroa e empregada. Estabelecem uma relação de sensualidade e sexualidade cúmplices entre elas. “Capitu puxou a moça firme para ela, segurou o rosto e beijou-a na boca. A moça correspondeu e as duas continuaram o beijo. Quando se separaram um riso desajeitado chamou-as à realidade. Depois, um silêncio com o qual elas não sabiam lidar” (MARTINS, 1993, p. 57), o narrador enfatiza. A experiência amorosa cresce em intensidade e as duas mulheres se rendem àqueles impulsos sexuais. “Capitu tinha amarrado a empregada, nua, na cama. Nua também, Capitu deitara por cima de Conike. Na testa da patroa cintilavam as palavras emblemáticas da faixa: Capitu, an outsider” (MARTINS, 1`993, p. 63), o narrador nos informa. A negra Capitu e a branca Conike transformam a experiência homossexual num encontro multi-étnico. Nas palavra do narrador: Black and White, os corpos. As mentes não pareciam ter consciência de cor ou classe. Patroa e empregada fundiam-se no amor. Capitu beijava-a. A moça aceitava as carícias com doçura. Era evidente que estava gostando.” (MARTINS, 1993, p. 64).
A cumplicidade amorosa entre as duas moças é evidente. Porém, para Capitu a empregada alemã e loura ainda assume o papel de um fetiche longamente alimentado, desde a infância: “era evidente que Capitu gostava de brincar com bonecas louras. Sempre gostara, desde criança. Agora, estava brincando, realmente. Conike era a boneca branca que entendia a necessidade lúdica e racial de Capitu” (MARTINS, 1993, p. 68). Sensualidade, erotismo, sexo e fetiche encontram um caminho não imaginado pelas duas mulheres: um amor terno, afetuoso, feminino. “Um amor feminino tomara conta delas. Um amor mulher se abrira e elas tinham se entregado sem reservas,” (MARTINS, 1993, p. 88), é a conclusão do narrador.
A mobilidade sexual de Capitu se amplia e a identidade bissexual de Capitu vai se estabelecer quando do seu envolvimento sexual com um casal vizinho. Neste envolvimento, Capitu se faz acompanhar da amante Conike. Talvez, a forma como o narrador apresenta o evento seja suficiente para visualização da bissexualidade de que Capitu se vê revestida.
5. Gênero, Fragmentação, Completude e Pluralização em “A Vizinha de Bell, Drummond e Whitman”
Parece que dentre todas as mulheres – personas poéticas, Bertília, Capitu e Vizinha – que encontram espaços na obra de José Endoença Martins, a última é detentora de maior complexidade identitária. Em A vizinha de Bell, Drummond e Whitman (2004), livro de ensaios literários, ela se move de forma especial e avança da fragmentação à completude à pluralização.
Como acontece com as personas poéticas, a fragmentação por que passa a Vizinha se concentra no corpo. “Minha vizinha tem um corpo escultural” (MARTINS, 2004, p. 9), o narrador esclarece. O corpo recebe o exame minucioso do olhar atento do narrador. Através do olhar, o narrador o escrutina “como um especialista examinaria um manga-larga num leilão” (MARTINS, 2004, p. 41). Ou como um apreciador da “receita de mulher do poetinha” (MARTINS, 2004, p. 42) Vinicius de Moraes que inicia o poema famoso com o verso “as muito feias que me desculpem, mas beleza é fundamental” (MORAES APUD MARTINS, 2004, p. 42). Mais adiante, ao corpo da vizinha o narrador acrescenta uma função utilitária. Inicialmente, o corpo da jovem é objeto do canto. “Canto o corpo dela ao alcance da minha mão” (MARTINS, 2004: p. 78), explicita o narrador-cantor. Em seguida, ele sugere a partilha do corpo da moça. “Pode repartir esse seu majestoso corpo comigo” (MARTINS, 2004, p. 82), ele a convence.
A partilha acontece e, então, o corpo da Vizinha é atomizado – tomado em seus minúsculos elementos – pelo narrador. A ênfase do olhar do narrador se dirige, então, às partes do corpo. Primeiro, os lábios. “Dos lábios joviais de minha vizinha” (MARTINS, 2004, p. 67) brotam as novidades literárias que, semanalmente, ela presenteia ao narrador. Às vezes, as novidades chegam tocadas pelo sofrimento e aí, “os lábios dela, porém, destilam a dor brasileira” (MARTINS, 2004, p. 67). Noutras, os lábios são arautos da alegria e, então, “o sorriso não se restringe aos olhos e lábios “(MARTINS, 2004, p. 78). Noutras vezes, ainda, os lábios se tornam bálsamo e calmante. Nestes momentos, “dos lábios dela se destacam para os meus, em movimentos circulares, a fumaça esverdeada de uma doce quentura que não sei precisar, mas aceito e me acalma” (MARTINS, 2004, p. 102). Talvez seja por esta calma alcançada que, em dado momento, o narrador desabafa e se rende aos lábios da moça que o alimenta com a literatura. “Quando os versos deixam de soar nos lábios dela, adivinhem o que eu faço. A coisa mais gostosa que dois lábios de uma adolescente podem me oferecer. Eu os beijo. Porém, minha vontade era canibalizá-los” (MARTINS, 2004, p. 118).
Canibalizar aqui significa vasculhar de forma utilitária o jovem corpo da Vizinha. Por isso, em sua ação canibalizadora, o narrador abandona os lábios da jovem e dirige sua canibalização as outras partes do corpo da Vizinha. Primeiro, a vagina passa por um ritual de canibalização prazerosa. “Espalho pétalas sobre a vagina loura da minha vizinha. Ela adora o gesto e o perfume das flores se espalhando naquela região sagrada” (MARTINS, 2004, p.126), o narrador se regozija. Às vezes, a vagina é apelidada de perseguida, o narrador afirmando que “não descolo o olhar da perseguida dela, loura” (MARTINS, 2004, p. 22)). Outras, ela é chamada de piriquita (“ainda mantenho o olhar na piriquita dela.” (p. 22)). Outras ainda, ela vira a buça que “me oferece uma visão panorâmica do paraíso, a buça loura” (MARTINS, 2004, p. 22)). Na mesma região anatômica, os pelos pubianos também são o alvo do olhar canibalizador do narrador que passei[a] “olhos de fauno negro pelos pêlos pubianos que acariciam o tecido” (MARTINS, 2004, p.54). Ou, ainda, vê que “algumas umidades (gotas) se arrebentam nos pêlos pubianos” (MARTINS, 2004, p. 86). E termina por realçar “a textura dos pêlos púbicos louros” (MARTINS, 2004, p. 97) da Vizinha. A bunda da Vizinha é outro atributo anatômico em processo de canibalização. “Percebo que a bunda dela é um órgão sexual engraçado” (MARTINS, 2004, p. 46). É erotizante, porque é “a mãe de todos os erotismos” (MARTINS, 2004, p. 47).
A fragmentacão da Vizinha ainda aparece em outros elementos anatômicos. Neste processo de fragmentação, os olhos, a boca, as pernas, as coxas dela se sobressaem. Nestes espaços anatômicos, “há brisa e fragrância de brisa que evola dos poros macios que se espalham por dorso, torso, barriga e coxas” (MARTINS, 2004, p.109). A fragmentação culmina nos seios. O narrador percebe que eles são muito sensíveis e que, quando tocados, espalham sensibilidade pelo corpo inteiro. “Um toque da minha mão no seio esquerdo e corpo todo se agita,” (p.130) explica o narrador. A apropriação dos seios da Vizinha se inicia com cautela. “Aliso os seios dela enquanto falo” (MARTINS, 2004, p. 62), o narrador explicita. Avança para uma atitude mais ousada quando “aperto-lhe os seios” (MARTINS, 2004, p. 74). E culmina com um beijo. “Meu beijo, porém, vai ao seio esquerdo dela, o preferido” (MARTINS, 2004, p. 98), o narrador felicita-se.
A fragmentação da Vizinha não é tudo nos ensaios literários de José Endoença Martins. Ela encontra limites já que o processo de completude também está presente, quando o narrador é levado a enxergar a moça de forma total, inteira, completa. É a própria moça que faz questão de realçar sua condição de mulher completa. “Não sou mulher pra de cinco a sete. Sou mulher full-time” (MARTINS, 2004, p. 20), ela insiste. Em sua completude full-time, a jovem Vizinha está envolvida por sentimentos. O sentimento mais visível é o amor. “Minha vizinha está impregnada de amor” (MARTINS, 2004, p. 13) e “traz no rosto a imagem do amor” (MARTINS, 2004, p. 69), informa o narrador. A própria moça confirma sua experiência amorosa. Para ela o ator Reginaldo Faria “é o meu primeiro amor. Não é platônico, nem físico, mas estético” (MARTINS, 2004, p.13). Tocada pelo amor, a Vizinha é capaz de defendê-lo e a reação do narrador é realçar esta sua atitude. “Sinto que minha vizinha está, hoje, uma ardorosa defensora do amor” (MARTINS, 2004, p.15). Na verdade, ela não apenas vive ou defende o amor. Ela deseja também que o narrador se envolva neste clima amoroso. “Minha vizinha deseja minha imersão total no amor que escorre dos dezesseis poemas do poeta” (MARTINS, 2004, p. 131), diz o narrador.
Talvez por causa do amor que a vizinha encontra nos seus encontros semanais com o narrador sua vida também está envolta em alegria. “Minha vizinha está radiante” (MARTINS, 2004, p.11) “e o corpo dela todo sorri de satisfação” (MARTINS, 2004, p.11), relata o narrador. Às vezes, alegria e satisfação aparecem demonstradas em atos de carinho para com o seu interlocutor. “Ela sorri e me dá um beijo leve” (MARTINS, 2004, p.15), o narrador relata. Outras vezes, a alegria tem uma razão de ser. Trata-se da tarefa cumprida, visível na alegria que ela demonstra quando “deposita as sinopses sobre a minha mesa de trabalho” (MARTINS, 2004, p. 17), sugere o narrador. Nestes momentos, ela está “radiante e linda” (MARTINS, 2004, p. 17). Além do amor, alegria e beleza pairam sobre a existência da vizinha. “Ela está linda. Um ar juvenil, alegre, brinca densamente bem no azul dos olhos dela” (MARTINS, 2004, p. 63), o narrador faz questão de realçar. Às vezes, diante dos versos de algum poeta, a alegria da Vizinha se transforma em animação. “Minha vizinha está mais animada agora. A poesia de Alcides Buss dá-lhe outra intensidade” (MARTINS, 2004, p.63), relata o narrador. O canto, às vezes, também se associa à alegria dela. Quando isso acontece, ela canta Roberto Carlos. O narrador esclarece que “minha vizinha senta na beirada da cama, cantando ‘agora uma canção canta pra mim. Não quero ver você tão triste assim” (MARTINS, 2004, p. 77). Neste ambiente de alegria e canto, a Vizinha percebe que tem uma missão salvífica. “Minha vizinha se transfigura em salvadora e prepara minha salvação eterna” (MARTINS, 2004, p.126), o narrador completa.
Nos ensaios literários de José Endoença Martins, a Vizinha é dotada da capacidade de mover-se da fragmentação à completude à pluralização. Pluralização é o ápice da mobilidade identitária que ela atinge. O narrador confere a pluralização da moça que inicia com sua duplicação: “minha vizinha se duplica porque sabe que na pasárgada de Manuel Bandeira o prazer se dá em dobro” (MARTINS, 2004, p. 44). Como as palavras do narrador sugerem, a duplicação e a posterior pluralização da Vizinha acontecem sempre nos contatos que ela mantém com a literatura, especialmente a poesia. Como ela é “assessora para assuntos de poesia e literatura” (MARTINS, 2004, p.9) do narrador a pluralização da qual ela se investe se move na medida em que ela vai se identificando com, e se fundindo, textos poéticos e literários variados. Às vezes, a identificação é com um texto masculino. Por exemplo, na poética amorosa de Bell, a vizinha surge como o sol. “Sol meu, levanta sob as as pálpebras fechadas, sob a retina debaixo da memórias dos dias, quando decifrávamos a pressa dos temporais em teu jardim parado e temporal” (BELL APUD MARTINS, 2004, p. 108), o narrador esclarece.
Outras vezes, a pluralização da vizinha se desloca do masculino para o feminino. A identificação, então, se dá com o texto feminino. Quando discute a poesia de Christina Pakuczewski com o narrador, a vizinha recita o verso e assume o comportamento que o verso propõe. O verso diz “deixa-me ouvir o grito aflito do atrito da carne contra a carne” (PAKUCZEWSKI APUD MARTINS, 2004, p. 103). As atitudes dela reafirmam o verso. “Ela fala e se cola em mim de maneira tão intensa que eu tenho o pressentimento de que ouvi, em surdina, o grito aflito do atrito dos nossos corpos. E eu grito. Ouve. Ela prefere prolongar o atrito” (MARTINS, 2004, p.103), o narrador nos conta.

Considerações Finais
A centralidade da experiência feminina na obra de José Endoença Martins se evidencia. A presença da mulher se atém aos modos como ela se articula em suas variadas formas de identidades e subjetividades. Hall (2001) esclarece que as identidades femininas de gênero e raça são móveis, ou seja, em processo, movimento, em mutabilidade. Esta mobilidade identitária permite afirmar que dois tipos de conclusões são visíveis: uma reafirma as identidades femininas de gênero; outra reforça as identidades de gênero e raça. Analisadas no livro de poemas Me Pagam pra Kaput, as identidades de gênero movimentam-se da fragmentação à completude, ou seja, da mulher vista em suas partes à mulher percebida em seu todo. A ênfase nos seios exemplifica bem a identidade fragmentada da persona: “um top-less/quando acontece/um seio sobe/outro desce” (MARTINS, 2004, p.37). A completude surge na referência à mulher inteira: “quando uma mulher/encontra um homem/urge um ritual.” (MARTINS, 2004, p.150).
Estudadas na peça O Olho da Cor, as identidades de gênero e raça espelham três aspectos da pluralização feminina: negra, branca, e híbrida. Enquanto a negra e branca devem ser olhadas com reservas por seu isolacionismo e congelamento no mundo negro ou branco, a híbrida deve se festejada por promover a integração entre valores negros e brancos. A mulher híbrida busca mobilidade em relação à cor, raça e identidade quando deseja: “ora, a mulher é negra, depois fica branca e, em seguida, pode ser negra e branca.” (MARTINS, 2003, p.124). No romance Enquanto Isso em Dom Casmurro, as identidades femininas de gênero e raça estão associadas à pluralização. Em sua capacidade de pluralizar-se, Capitu desenvolve três aspectos da subjetividade sexual: heterossexual, homossexual e bissexual. A homossexualidade de Capitu inclui a empregada branca Conike. Embora as duas pareçam desatentas as estas particularidades, a sexualidade delas envolve gênero, raça e classe: “black and White, os corpos. As mentes não pareciam ter consciência de cor e classe. Patroa e empregada fundem-se no amor” (MARTINS, 2004, p. 64).
Finalmente, em A Vizinha de Bell, Drummond e Whitman, encontramos o exemplo mais complexo da identidade feminina. Em sua concentração na categoria de gênero, a personagem Vizinha alia os três tipos de subjetividade e avança da fragmentação para a completude e para a pluralização. A pluralização inicia com a duplicação e se torna complexa mais adiante: “minha Vizinha se duplica porque sabe que na pasárgada de Manuel Bandeira o prazer se dá em dobro” (MARTINS, 2004, p. 44).

REFERÊNCIAS
ALEXANDER, S.C. Identity. In: Andrews, W.L., Foster, F.S. & Harris, T. (eds.). The Oxford Companion to African American Literature. Oxford: Oxford University Press, 1997, p. 379-383.
AVIRAM, A. F. Gender Theory. In: Davidson, C.N. & Martin, L.W. (eds.). The Oxford Companion to Women´s Writing in the United States. Oxford: Oxford University Press, 1995, p. 342-345.
DESCHAMPS, D. José Endoença Martins: A Modernidade na Poesia. In: Martins. E.M. (org.). Poema Minuto: A Poética do Tempo. Blumenau: Edição do Autor, 1991, p. 66-68.
FLAX, J. Subjectivity. In: Davidson, C. N. & Martin, L. W. (eds.). The Oxford Companion to Women´s Writing in the United States. Oxford: Oxford University Press, 1995, p. 859-860.
HALL, S. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2001.
HUBER, V. Saudade e Esperança: O Dualismo do Imigrante Alemão Refletido em Sua Literatura. Blumenau: Editora da Furb, 1993.
JUNKES, L. Uma Pós-Moderna Capitu Negra e Liberada. In: Diário de Cultura, Ano 2, No. 13. Diário Catarinense, Florianópolis, 05/03/1994, p.5.
MARTINS, J. E. Me Pagam Pra Kaput. Blumenau: Edição do Autor, 1986.
....................O Olho da Cor. Blumenau: Edição do Autor, 2003.
................... Poema Minuto: A Poética do Tempo. Blumenau: Fundação Casa Dr. Blumenau, 1991.
....................Enquanto Isso em Dom Casmurro. Florianópolis: Editora Paralelo 27.
....................Negritice: Repetição e Revisão. In: O Olho da Cor. Blumenau: Edição do Autor.
RISTOFF, D. Apresentação. In: Martins, J.E. O Olho da Cor. Blumenau: Edição do Autor, 2003, p. 7-12.
SABINO, L.L. Uma Capitu Pós-Moderna (mímeo)
WALKER, A. Womanism. In: Search for Our Mothers Gardens: Womanist Prose, New York: A Harvest/HBJ Book, 1983, p.xi-xii.


Lembra-se que este Artigo é um pequeno apanhado da pesquisa financiada durante um ano pelo CNPq, que é uma agência do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) destinada ao fomento da pesquisa científica e tecnológica e à formação de recursos humanos para a pesquisa no país. Sua história está diretamente ligada ao desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil contemporâneo. [fonte: CNPq] Respeite o Autor, [cite a fonte] e o Pesquisador. Respeite a Lei dos Direitos Autorais - Lei - 9.610 de 19/02/1998.











segunda-feira, 25 de julho de 2011

Melancolia - Lars Von Trier - Melancholia

Melancolia, palavra conhecida por um estado de tristeza e proveniente do grego, melan = negro e colia = bílis, [dividi a palavra tal qual conhecemos ela no português], ou seja a bílis negra. Para Hipócrates, o pai da medicina, a bílis negra seria um dos fatores cruciais para que o indivíduo manifestasse a falta de entusiasmo, ou equilíbrio do funcionamento físico e mental, uma vez que Hipócrates classificou várias doenças, entre elas a melancolia. Ele identificou 4 humores corporais, ou seja, o sangue, a fleugma, a bílis amarela e a bílis negra. No indivíduo supostamente sem  entusiasmo, o baço estaria secretando muito mais bílis negra do que o normal, dai a dizer que o humor estaria mais dark, noir.
Fiz toda essa introdução porque houve um momento na literatura em que ser melancólico, principalmente no período romântico, era estar em um patamar de grande experiência, até mesmo enriquecedora para escrever. Hoje, a melancolia não é considerada doença, mas sim uma característica da depressão maior.
Melancolia, aqui, filme-cabeça do dinamarquês Lars Von Trier do  ótimo Dogville e que não mediu palavras no Festival de Cannes. Trier deu uma de John Galianno sem noção, se bem que Trier não estava, ou não parecia estar bêbado, logo pisou feio no calcanhar de muita gente. Por essas que a Argentina foi um dos primeiros países a vetar o filme Melancolia, mas ai o veto é feio também porque o que o filme tem a ver com Lars?, a gente sabe que tudo, mas não se perde uma obra dessas por palavras malditas.
O filme é estrelado por Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland, que não fazia mais nada do que 24 horas, talvez um renascimento para Kiefer em drama, fala-se de Kiefer, mas não se fala do ator  sueco Alexander Skarsgard, um vampiro da série True Blood, que leva Kirsten para o altar em Melancolia, vamos prestar atenção no ator,  o então vampirinho.
Segundo Lars Von Trier, é "um belo filme sobre o fim do mundo". O que esperar quando essa frase é dita pelo próprio cineasta, sentar e esperar nosso entusiasmo se esvair? Que nada!, vamos ser positivos, esquecer esse estado de melancolia e aguardar, segundo Trier, o fim do mundo nas telas aqui no dia 05 de agosto, que tal?


Sobre uma Pintura...


[O quadro acima é de minha autoria,  do tempo em que eu pintava com tinta óleo, esta tela que me inspirou está com minha irmã. Esse conto ganhou o primeiro lugar em um concurso realizado em todas as Escolas Catarinenses].

Sobre uma pintura...
O quadro na parede me levava a crer que os dons artísticos de uma pessoa, não são meramente artísticos, ou mais que isso, na filosofia do dom, é o que vem conosco. Uma herança? De qual geração?[ou vida?].
O fundo azul profundo. Que mergulho no inconsciente. Que salto no escuro! Da imensidão das galáxias, quero alçar voo por onde desconheço, mergulhar onde estamos tranquilos. Só eu e o azul, o imenso, onde minha voz produz ecos. Porque na textura da tela, pode ser sim considerado elevações de nossos altos e baixos.
Caio numa forma cônica, com seus brancos sujos, amarelado, um quê certo de ser Nápoles, e ainda a luz maior me indica a suavidade do toque. É flor, e no miolo vejo um único pistilo e, entranhado de aspereza, fez-me lembrar as terras secas, estéreis, mas que na formosura separa-se completamente, pois este tem vida.
Reconheço a Sombra Natural, um pouco de Terra de Siena... Tá ficando frio aqui, um vento gelado sopra meus cabelos, o ar fica seco. Preciso me envolver na suavidade da seiva que está naquele Verde Vessi, pois assim trarei de volta a umidade tão necessária quanto uma chuva em dias de verão.
Olho tudo, a imensidão das folhagens, das estruturas gigantes cônicas, umas fechadas. Posso até visualizar o movimento da abertura do botão transformando-se na flor. Parece uma borboleta que acabou de abrir suas asas. É o nascer.
Com tanto agito, movimento, o calor das cores todas misturadas, trouxe-me agora um certo desejo de mergulhar naquele vaso, um aquário translúcido. Agora sim começa a exploração. A água tão transparente mistura-se com raios solares e confunde as cores.
Segundos antes, texturas desérticas, agora refrescada aquaticamente e decifrando os tons, brincando com as formas que meus cabelos desenham. Nos raios de sol, nas gotinhas da parede, o prisma iluminando o ambiente, - Carmim Alizarim, muito quente!!!, - Magenta, um pouco mais suave, - Azul da Prússia, ufa! Equilibrando o ambiente, voltando ao natural ao deparar-me com uns matizes um pouco mais diluídos.
Depois de uns mergulhos hora de caminhar um pouco, secar minhas roupas. Quem sabe andar sobre as folhas? Em seus veios há muitas direções a tomar, muito que decidir.
O relógio dispara seus ponteiros, devo ter me ausentado horas!, E como era conhecedora daquele quadro. Por um momento acreditei que estava fora muito tempo, mas quando voltei a mim, passaram-se só cinco minutos..., E o quadro...? Havia pintado eu mesma, cerca de um ano e meio atrás. Esta tela., a qual eu chamava Copos-de-Leite.

De Volta ao Blog - Antologias

Depois de alguns dias de férias retorno ao blog, confesso que tive a maior vontade de escrever, mas resisti. Não que eu não tivesse as ferramentas necessárias para fazê-lo e mesmo que eu não colocasse meu notebook na mala, aliás não levá-lo não fez a menor diferença, pois a net, a wireless, os smartphones estão em todos os lugares. Eu resisti, apenas não deixei de fazer anotações rápidas e hieróglifas em meus caderninhos, agendas, pedaços de papel, até mesmo em uma bolsinha plástica de compras. Sem contar as anotações imaginárias que faço em alguma parte de meu cérebro, o qual vira a maior bagunça, mas eu sei, estão lá as ideias anotadas. Falar em ideias, tirei do fundo da memória os livros dos quais participei com outros autores, essas antologias. Sempre participei com contos, com excessão do Projeto Pão e Poesia, algum de meus poemas fora publicado, não me recordo qual. Também me arrisco no verso. Eis aqui as capas dos livros. Admiro as parcerias e agradeço sempre os que tomam as iniciativas dos projetos e, sempre que posso, aceito os convites.



sábado, 16 de julho de 2011

Edgar Allan Poe - The Raven - O Filme

O que dizer sobre um gênio? Nada!, gênios não se importam com o que se diga sobre eles, são intolerantes com pessoas desinformadas ou as que possuem Q.I abaixo da média. Logo, diz-se que um gênio tem mau humor, tem personalidade difícil, parece alheio a tudo e a todos, ledo engano. Todo gênio é observador, aprecia tudo e saboreia os mínimos gestos das pessoas que estão alheias aos pensamentos do gênio. Nem o movimento das asas de qualquer inseto a  farfalhar lhe escapa aos olhos. E todos pensam que o gênio está alheio, não conversa, não faz piada, não ri. Ele o faz para si e não para mero expectadores. Gênio pensa enquanto as gentes contam piadas e falam bobagens, assuntos sem a menor importância para o mundo  ou para as pessoas em um metro quadrado. É, gênios não são fáceis, mas se garantem, não contam com a sorte e sim com talento. Eu chego a dizer que quem usa boa sorte ou é um bom jogador de roletas de cassino caseiro ou ainda não percebeu que existe gente realmente boa no que faz. Nunca deseje boa sorte a um gênio, ele para não decepcionar seu Q.I lhe desejará boa sorte também, mas o que realmente está dizendo é que você não tem talento e por esse motivo precisará de muita sorte mesmo. Mas que rebeldia nessa crônica, sô! É para testar como deveriam ficar as pessoas indignadas diante de um Edgar Allan Poe, uma hipótese apenas. Conhecido por ser um gênio e por sua rebeldia.
Edgar Allan Poe teve uma vida conturbada, esse estadunidense teve problemas na infância com seus pais de sangue, foi adotado por um casal que lhe deu o nome e todas as condições favoráveis a uma vida melhor, frequentou faculdade, exército e se rebelou contra essas instituições. Poe era rebelde demais para se moldar ao sistema, era autodestrutivo e melancólico, talvez pelo modismo da época gótico demais. Bebia como bom bebedor, vamos ser gentil aqui com meu ídolo, tinha uma personalidade difícil de aturar, mas ainda assim era gênio e não percebeu que em sua Boston ele poderia retornar velhinho.
Mas, o que dizer quando o gênio cria os melhores contos? Quando inventa o gênero terror e o detetivesco?, ou o conto policial, de mistério ou investigativo. Em uma narrativa de Poe tudo soa à atmosfera brumária, de matizes gris, é o próprio mistério que vaga na narrativa, assim como fosse um de seus personagens a nos dizer as pistas.
Para ler Poe, é preciso, nos dois sentidos, tudo é precisão, tudo tem conexão, pistas deixadas, números, raciocínio lógico e é preciso, é necessário.
Poe, sobrenome da família legítima e Allan, dos adotivos, deram o nome de nosso escritor, poeta, crítico literário e editor, Edgar Allan Poe, estadunidense que bebeu em fontes inglesas publicou seu primeiro livro, pasme, de poemas, publicou mais um livro, tornou-se editor e depois de um longo hiato publicou The Narrative of Arthur Gordon Pym, em seguida, publica a obra fantástica intitulada, Tales of the Grotesque and Arabesque, que foi traduzida por Charles Baudelaire, outro gênio francês que se impressionava com Poe. Para o português o livro passou a intitular-se Histórias Extraordinárias, lembro-me bem que  aos 9 anos eu já havia lido esse livro trazido da biblioteca de minha escola, fiquei muito impressionada com todos os contos e, especialmente, com o autor. Eu falava alto as sílabas: E - d - gar - A - llan - Poe, comendo rapidamente o "e" da última sílada. [rsrsrs]
Singular é, "Manuscrito Encontrado Numa Garrafa", "Berenice", " O Gato Preto", " William Wilson", " Os Crimes da Rua Morgue", " A Carta Roubada", " Nunca Aposte Sua Cabeça Com o Diabo", " O Poço e o Pêndulo", " O Escaravelho de Ouro" e " O Retrato Oval". Divirta-se sem esquecer que Poe deu vida em muitos contos ao detetive Dupin, bem antes da criação do detetive Sherlock Holmes, e preste atenção que no gênero terror, noir gótico de Poe há nas entrelinhas os abismos de temas considerados tabus ou até ficção científica para a época, vejamos: os cenários de castelos assombrados, igrejas, ruínas, a psicologia do medo, a loucura, deformação física, espectros, reflexos, maldições, profecias. Mas, o que instiga o leitor é a reanimação dos mortos ou a decomposição destes e o horror da tapocrifação, ou seja,  o enterro por engano, acidental de alguém vivo!, e sobre frenologia e metempsicose também! Sinistro.


Passemos dos contos ao poema, The Raven, ou O Corvo, de Edgar Allan Poe, está previsto para 2012 aqui, o ator John Cusack, interpretará o próprio Poe, as gravações já começaram em clima de fog, neblina, nas locações da Sérvia e Budapeste. O título do filme é homônimo ao poema famoso e multitraduzido The Raven, que além de falar sobre o poema, dirá sobre os últimos dias de Poe, morto aos 40 anos, as causas, são várias e não há uma oficial. O fato é que nos últimos momentos de vida em que o escritor já se encontrava em estado de delirium tremens e, popularmente conhecido como DT, causado pelo álcool, deu seu último suspiro dizendo que Eddie estava morto.
John Cusack faz parte da nova geração de bons atores com muitos filmes no currículo, e The Raven está sendo dirigido por James McTeigue [V de Vingança], ótimo. É aguardar para ver. Na foto Cusack e o Corvo.
Como eu havia dito no início, o que dizer sobre um gênio?, eu diria tudo, quase tudo, alguma coisa, ou apenas algo, pois ainda é dizer, somente para não irritar um gênio.


Sandra Puff

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Os Gatos e a Literatura 2 [O Gato de Botas]

Caríssimos, tenho sido cuidadosa e astuta como um gato o faria ao falar sobre O Gato de Botas, até andei pensando além da conta sobre esse queridíssimo felino. Perceberam como estou sendo até superlativa?, é porque não se trata de um gato só querido, simpático, elegante, carismático e sim de um gato escolado, furtivo, pretensioso, astuto, genial, ligeiramente frágil e extremamente objetivo. Há que se ter cuidado ao falar d`O Gato de Botas, pois ele tem uma legião de fãs.
Como sou observadora e crítica, fui dar uma volta na www. e vi que estaria cometendo um pecado mortal ao querer incriminar O Gato de Botas. Por quê? Porque todos falam bem do gatinho. Mesmo assim começo o desenrolar de meu pequeno estudo, salvo claro, estou falando de um ser de ficção. Tal qual, tudo ocorreu em ficção. E para início, sabe-se que o gato fez parte de um conjunto de uma herança deixada pelo pai aos 3 filhos. Coube ao mais novo o gato. O que o filho mais novo falou sobre o gato, ainda é sigilo.
O gato, esse animal dócil e gentil, viu seu dono chateado e muito ponderado falou: " Não se aflija, meu amo, basta que me dê um saco e mande fazer para mim um par de botas para que eu possa andar pelo mato, e verá que o pedaço que lhe coube na herança não é tão mal assim."(p.51)
E assim o dono fez, o gato ficou a criaturinha mais linda, e tão prestativo a seu dono, é bem verdade que o gato andou passando dos limites como suas novas botas. Ele matou pela primeira vez sem misericórdia, pela segunda vez e muitas outras. Inventou mentiras. Fez favores. Recebeu gratificações. Mas tudo era por uma boa causa, dizia ele convencido de que era isso mesmo. E também chegou a ser conselheiro de seu "amo", que agora o gato o chamava de "Marquês de Carabá", um título e um nome que apareceram de veneta na cabecinha do Sr. Gato, como disse, há que se ter respeito por um gato assim. Disse o Sr. Gato: "Se quiser seguir meu conselho, sua fortuna está feita; basta que vá se banhar no rio no lugar que lhe mostrarei. E deixe o resto por minha conta."(p.53) rsss.
Bom, o agora marquês de Carabá estava apaixonado devido "aos conselhos do Sr. Gato" e tendo uma sorte tremenda, pois a filha de um Rei das redondezas, o qual o gato andava mostrando toda astúcia e sutileza, também estava retribuindo olhares. Mas o gato não estava de todo feliz, ele havia traçado objetivos, então fez o teatro, dramatizou, planejou, ameaçou e ameaçou as gentes pela segunda vez e também iludiu. "Garantiram-me, disse o gato, que você tem o dom de se transformar em todo tipo de animal, que é capaz, por exemplo, de se transformar num leão ou num elefante. É verdade, respondeu o ogro bruscamente. Para lhe dar uma amostra, vou me transformar num leão."(p.55)
O gato deve ter pensado uma infinidade de coisas sobre o ogro, porém com tanto medo do inesperado e talvez, o malvadinho testando suas delicadas unhas retráteis ainda disparou o inimaginável: " Garantiram-me ainda, disse o gato, mas não pude acreditar, que você também tem o poder de tomar a forma dos animais mais pequeninos, que pode se transformar por exemplo num rato, num camundongo. Confesso que isso me parece totalmente impossível. Impossível? - replicou o ogro. Veja só. E no mesmo  instante se transformou num camundongo que se pôs a correr pelo assoalho. Quando viu isso, o gato se jogou em cima dele e o comeu."(p.57) Seria melhor dizer: o matou, mas não vamos acabar com o glamour do Sr. Gato, mas fome é que ele não tinha. Queria mesmo era o castelo do ogro, dar ao seu amo e serem ricos para sempre. Dessa forma, " O marquês deu a mão à jovem princesa [...] aceitou a honra que lhe fazia o rei; e naquele dia mesmo casou-se com a princesa. O gato tornou-se um grande senhor e passou a só correr atrás de camundongos para se divertir."(pgs.57-58).
Esse conto é do escritor francês Charles Perrault, publicado em 1697. Charles Perrault foi funcionário do governo de Luís XIX e responsável pela escolha dos arquitetos que projetaram o Palácio de Versalhes e o Louvre!
Mas o que o gato ouviu que ficou em sigilo?
Todos os verbos que o gato usou nesse pequeno estudo sobre a personalidade dele o incriminam. Ele fez tudo o que podia e não podia para agradar seu amo e a si próprio. Mas como foi citado no início, pura ficção. É verdade, ele roubou, mentiu, iludiu, ameaçou, etc, etc....mas matar, só matou perdizes, coelhos e camundongos. Diante de tal evidência e mais a fala de seu recém amo: "Meus irmãos, dizia, poderão ganhar a vida honestamente trabalhando juntos. Quanto a mim, quando tiver comido o meu gato e feito luvas com sua pele, só me restará morrer de fome."(p.50), fica O Gato de Botas, depois de ouvir tal barbárie, livre de qualquer acusação!
O livro que cito as passagens do conto é uma Antologia de Contos: Tradução Maria Luiza X. de A. Borges.
O Gato de Botas  no cinema - 2011 [mais uma das milhares releituras, vamos conferir].